A possibilidade de realizar um sonho pode tornar a vida mais interessante. Entretanto, quando o desejo de encontrar ou manter alguém passa a ocupar todos os espaços, a pessoa pode ultrapassar os próprios limites e se envolver em um amor doentio. Nesse tipo de relação, permanecer ao lado do outro se torna mais importante do que preservar o respeito, a segurança, a autonomia e o próprio bem-estar.

“É justamente a possibilidade de realizar um sonho que torna a vida mais interessante.”

Paulo Coelho, em O Alquimista.

A célebre frase do escritor Paulo Coelho chama a atenção para a importância dos sonhos como elementos de motivação. Sonhar pode orientar escolhas, estimular mudanças e ajudar uma pessoa a construir projetos para sua vida. Contudo, nenhum sonho deveria exigir que alguém abandonasse continuamente a própria dignidade para realizá-lo.

Nos primeiros dias do ano, assisti a um programa de televisão que entrevistou cerca de uma dúzia de pessoas sobre seus desejos e objetivos para 2015. Mais da metade mencionou a vontade de iniciar um relacionamento, encontrar um namorado ou uma namorada, casar e formar uma família.

Ter sucesso na vida amorosa representa uma meta importante para muitas pessoas. Por isso, precisamos compreender o que pode levar alguém a investir tanto numa relação e qual seria o limite desse investimento.

Por que algumas pessoas fazem tudo para manter uma relação?

Quanto mais importante se torna a meta de ter um relacionamento, maior pode ser a disposição para investir nela. O perigo surge quando a pessoa começa a sacrificar outras áreas da vida e aceita comportamentos que lhe causam sofrimento apenas para não ficar sozinha.

Cada pessoa leva para suas relações as marcas da própria trajetória. Ao longo da vida, aprendemos diferentes maneiras de buscar afeto, demonstrar cuidado, reagir ao afastamento e lidar com a possibilidade de rejeição. Alguns desses padrões podem reaparecer nos relacionamentos amorosos, principalmente quando alguém acredita que precisa fazer qualquer coisa para evitar o fim.

Nessas condições, a relação deixa de ser apenas um espaço de troca afetiva e passa a funcionar como a principal fonte de segurança, reconhecimento ou realização. A pessoa começa a depositar no parceiro a responsabilidade de compensar suas frustrações, confirmar seu valor e atender às suas expectativas.

Consequentemente, qualquer comportamento de autonomia pode parecer uma ameaça. Uma saída com amigos, a demora para responder a uma mensagem ou um pedido de espaço pode ser interpretado como rejeição. Assim, o medo da perda começa a orientar comportamentos que aumentam justamente os conflitos e o afastamento.

Mulher angustiada diante de um homem agressivo em uma situação de amor doentio e violência no relacionamento
Controle, intimidação e medo não representam demonstrações de amor. Elídio Almeida, psicólogo em Salvador e especialista em terapia de casal.

Quando o amor doentio dá lugar ao controle

Neste texto, chamo de amor doentio a dinâmica na qual manter o relacionamento se torna mais importante do que preservar o respeito, a segurança e a autonomia das pessoas envolvidas. O sentimento pode continuar recebendo o nome de amor, mas isso não torna saudáveis todas as atitudes praticadas em nome dele.

Algumas pessoas confundem vigilância com cuidado, insistência com compromisso e controle com proteção. Exigem respostas imediatas, fiscalizam redes sociais, tentam determinar roupas e amizades ou acreditam que o parceiro precisa demonstrar gratidão por toda a dedicação recebida.

Na experiência clínica com relacionamentos, percebo como essa dinâmica costuma produzir sofrimento dos dois lados. Uma pessoa tenta controlar cada movimento para diminuir o medo de ser abandonada. Enquanto isso, a outra começa a omitir informações, afastar-se ou abrir mão da própria liberdade para evitar discussões.

A relação entra, então, num ciclo desgastante. Quanto mais alguém controla, mais o parceiro procura distância. Quanto maior o afastamento, mais intensa se torna a tentativa de controle. Dessa forma, comportamentos apresentados como provas de amor começam a enfraquecer a confiança e a segurança emocional.

Independentemente do nome atribuído ao sentimento, o amor não concede a ninguém o direito de retirar a autonomia da outra pessoa. Cuidado envolve interesse e disponibilidade. Controle, por sua vez, envolve imposição, vigilância e desrespeito aos limites.

Qual é o limite para manter um relacionamento?

Todo relacionamento enfrenta dificuldades. Divergências, mudanças, crises, frustrações e conflitos fazem parte da convivência entre pessoas diferentes. Portanto, o limite não está simplesmente na existência de problemas, mas naquilo que o casal faz diante deles.

Uma relação pode enfrentar situações difíceis e se reconstruir quando existe reconhecimento, responsabilidade e mudança. Os parceiros precisam conseguir conversar, avaliar os efeitos de seus comportamentos e construir acordos. Além disso, ambos devem demonstrar compromisso com as transformações necessárias.

O limite começa a aparecer quando a permanência exige que uma pessoa abandone continuamente sua segurança, dignidade, liberdade, saúde, trabalho, amizades ou projetos pessoais. Também merece atenção a relação na qual apenas um dos parceiros se responsabiliza pelas mudanças, enquanto o outro repete os mesmos comportamentos e exige novas concessões.

Alguns sinais podem indicar que o desejo de manter a relação está ultrapassando limites importantes:

  • abandonar amizades e familiares para evitar o ciúme do parceiro;
  • permitir que a outra pessoa controle roupas, dinheiro, trabalho ou redes sociais;
  • aceitar humilhações e agressões por medo de ficar só;
  • exigir acesso ao celular, às senhas e à localização do companheiro;
  • interpretar qualquer discordância como prova de desamor;
  • ameaçar terminar ou se machucar para impedir o afastamento;
  • desistir de estudos, trabalho, saúde ou projetos pessoais;
  • viver com medo das reações do parceiro.

Uma relação não precisa ser perfeita para continuar. Entretanto, permanecer não pode significar aceitar indefinidamente a repetição de comportamentos que causam sofrimento. Compromisso envolve disposição para enfrentar problemas, e não a obrigação de suportar qualquer coisa. Nesse contexto, o amor doentio começa a limitar escolhas e a reduzir progressivamente a autonomia de quem vive a relação.

Violência não é apenas um conflito do casal

Algumas situações ultrapassam as dificuldades comuns da convivência. Agressões físicas, ameaças, coerção sexual, perseguição, humilhação, isolamento e controle da vida do parceiro constituem formas de violência. Nesses casos, não estamos falando apenas de um casal que precisa melhorar a comunicação.

O controle pode surgir disfarçado de cuidado. A pessoa afirma que verifica o celular porque ama, limita as amizades porque deseja proteger ou controla o dinheiro porque sabe o que é melhor para o casal. Contudo, quando uma dessas atitudes retira a liberdade do outro e produz medo, a relação já ultrapassou um limite importante.

Diante de violência ou risco, a prioridade deve ser a segurança da pessoa. Por isso, a terapia de casal não deve aparecer como resposta automática para todas as situações. O apoio individual, a rede de proteção e a orientação de serviços especializados podem ser necessários antes de qualquer trabalho conjunto.

Mulheres que enfrentam violência podem buscar informações e orientação pelo Ligue 180, serviço gratuito que funciona 24 horas. Em situações de risco imediato ou quando a violência estiver acontecendo, a Polícia Militar deve ser acionada pelo 190.

Reconhecer a gravidade desses comportamentos não significa abandonar o cuidado com quem os pratica. Essa pessoa também pode precisar de acompanhamento psicológico. Entretanto, seu sofrimento não justifica controlar, ameaçar ou agredir o parceiro.

Como a psicoterapia ajuda a enfrentar o amor doentio?

A pessoa envolvida numa dinâmica de amor doentio nem sempre consegue perceber sozinha as relações entre medo, expectativas, comportamentos e consequências. Muitas vezes, reconhece a intensidade do sofrimento, mas acredita que tudo acontece porque ama demais ou porque o parceiro não corresponde à sua dedicação.

A psicoterapia comportamental pode ajudar a compreender como a pessoa aprendeu a lidar com afeto, rejeição e afastamento. Durante o processo, ela também pode identificar os comportamentos que mantêm relações prejudiciais e avaliar as consequências das próprias escolhas.

Além disso, a psicoterapia favorece o desenvolvimento de novas maneiras de comunicar necessidades, estabelecer limites e recuperar a autonomia. O objetivo não consiste apenas em manter ou terminar um relacionamento. A pessoa precisa encontrar condições para tomar decisões mais conscientes e compatíveis com aquilo que vive.

Quando a terapia de casal pode ajudar?

Quando existe segurança, participação e disposição de ambos para mudar, a terapia de casal também pode ajudar. Nesse espaço, os parceiros analisam os padrões que se repetem, compreendem como cada comportamento afeta a relação e constroem acordos mais claros.

Ao longo dos atendimentos, percebo que algumas pessoas começam a reconhecer o quanto reduziram a própria vida para tentar preservar uma relação. Deixaram de encontrar amigos, abandonaram projetos e passaram a organizar todas as escolhas em função das reações do parceiro. Identificar esse processo representa um passo importante para reconstruir limites e novas formas de se relacionar.

Por isso, pergunte-se: quanto você tem precisado abrir mão de si para manter esse relacionamento? A resposta pode ajudar a diferenciar um investimento afetivo de uma dinâmica que produz dependência, controle e sofrimento.

O amor pode motivar cuidado, compromisso e transformação. Porém, não deve exigir que alguém deixe de existir como pessoa para permanecer ao lado de outra. Se você reconhece esses sinais em sua relação, buscar ajuda profissional pode ser o começo de uma mudança importante.

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5 Comentários

  • Gostei bastante do assunto, não tinha ideia que o relacionamento obsessivo era dessa forma, tinha outra visão, na verdade pensava mais como um relacionamento violento.
    Valeu

  • Olá Thaty!
    Obrigado pela participação. Pois bem, o relacionamento obsessivo possui muitas formas para a tentativa de controle, por vezes pode ser de forma mais violenta e agressiva, mas, em sua grande maioria, é sutil e silenciosa.

  • Michelle disse:

    Muito bom o texto.Tenho percebido que muitas pessoas estam sofrendo de amor compulsivo.Os numeros sao assustadores.Pessoas que insistentemente lutam para manter o relacionamento e ate atentam contra a propria vida,podem ser consideradas portadoras dessa doença?E como fica o parceiro?o sofrimento tb deve ser intenso.

  • Michelle disse:

    Que tal escrever também um texto sobre o parceiro de pessoas que tem amor obsessivo? Com a vasta experiência do Dr. tenho certeza que daria mais um belíssimo texto.

  • Olá Michele, obrigado pela participação. Excelente sugestão! Vou me programar e tão logo seja possível escreverei e postarei seu pedido aqui no blog.

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