Nos últimos anos, o movimento chamado tradwife tem ganhado força nas redes sociais e despertado debates acalorados. O termo tradwife é um neologismo em inglês para “esposa tradicional” e define um estilo de vida que exalta o papel da mulher como dona de casa tradicional e dedicada, responsável pelo bem-estar do marido e dos filhos, muitas vezes colocando a mulher em uma posição de dependência do marido.
Com vídeos bem-produzidos, blogueiras e influenciadoras mostram rotinas supostamente perfeitas, em que cozinham, limpam, cuidam dos filhos e exaltam o casamento como um projeto de vida. Hoje, em um mundo pautado pelos ideais de blogueiros e influenciadores digitais, esse tipo de conteúdo impulsiona ainda mais o interesse pelo movimento. Entretanto, o que poucos percebem é o lado B dessa história.
No meu consultório, acompanho casais que frequentemente enfrentam desafios causados pela idealização de um estilo de vida que, na prática, se mostra insustentável. Algo muito comum no caso do movimento tradwife. Nas redes sociais, no entanto, pouco se fala sobre o outro lado dessa história: os casos de insucesso, a dependência financeira, a insegurança jurídica no casamento e a romantização de ideais ultrapassados, que muitas vezes deixam as mulheres vulneráveis e presas a um papel de vida padronizado. E é sobre isso que vamos falar neste post.
A vida não é um conto de fadas: você precisa pensar nas consequências de ser uma tradwife
Toda pessoa entra em um relacionamento desejando que ele seja duradouro. Já falei sobre isso em diversos posts do meu site e não me canso de repetir isso para meus pacientes. Contudo, é fundamental lembrar que ninguém tem controle sobre o futuro. Por isso, enquanto psicólogo e terapeuta de casais, me preocupa o fato de que o modelo tradwife esteja sendo romantizado e adotado por tantas pessoas sem uma reflexão mais profunda.
Ao longo da minha carreira, com mais de 15 anos atendendo casais na terapia de casal, já acompanhei inúmeros casos em que, com o passar do tempo, o sentido da relação já não era mais o mesmo de quando começou. No início do namoro, tudo parecia perfeito e baseado na ilusão de que o relacionamento duraria para sempre. Mas, à medida que os anos passam, o que antes parecia um sonho pode se transformar em frustração e insatisfação.
Isso acontece porque, para muitas mulheres que optam pelo estilo tradwife, essa escolha pode parecer confortável no presente, mas é essencial considerar o futuro. Por isso, algumas perguntas precisam ser feitas:
- O que vai acontecer quando os filhos crescerem e saírem de casa?
- O que será de você se o relacionamento chegar ao fim?
Pensar em cenários adversos e nas consequências reais das escolhas do presente revela maturidade e compromisso consigo mesma e com a construção de um relacionamento sustentável. Portanto, é essencial ser crítico a modismos como o tradwife e questionar os interesses por trás dessa onda, que muitas vezes é impulsionada por determinados grupos e redes sociais sem considerar seus impactos na vida real.

As histórias que se repetem
Muitos homens se sentem contemplados ao serem cuidados e mimados por suas esposas – da mesma forma como foram cuidados e mimados por suas mães. Por outro lado, muitas mulheres encontram satisfação em cuidar do marido e dos filhos – porque foi assim que viram suas mães fazerem. Entretanto, poucos casais fazem uma reflexão honesta sobre os riscos que essa escolha pode trazer no futuro. E, frequentemente, essa falta de planejamento se transforma em frustração. Seja pelo fim inesperado do casamento, por traições, por desajustes na relação ou simplesmente porque, depois de anos, percebe-se que o ideal não era tão viável ou sustentável quanto parecia no passado.
Ser uma tradwife tem consequências: você está preparada para elas?
Em meu consultório, já atendi casais em que a mulher fazia o impossível para sustentar um casamento no qual o marido já não via mais sentido. E o motivo dela lutar tanto por esse relacionamento não era amor ou vínculo com seu parceiro, mas dependência financeira e a incerteza de uma vida futura sem ele, depois de ter aberto mão de seus estudos e/ou trabalho e da sua independência para se dedicar ao casamento e à família. Por isso, sempre que possível, alerto meus pacientes sobre os riscos de adotar um estilo de vida tradwife sem considerar as possíveis mudanças no futuro. Mesmo que hoje esse modelo faça sentido para o casal, é fundamental reconhecer que há sempre a possibilidade de essa realidade mudar.
- O marido pode perder o emprego, adoecer ou falecer.
- Ele pode querer se separar.
Claro que toda mulher pode escolher o que deseja para si, mas essa escolha precisa ser feita com plena consciência das consequências.
Vale a pena ficar juntos a qualquer custo?
E quando a vida de tradwife se transforma em um grande arrependimento e uma grande frustração? Quando as pessoas não se preparam para os cenários adversos, surge a pergunta: vale a pena salvar esse relacionamento a qualquer custo? Minha missão, como terapeuta de casal, não é simplesmente fazer com que as pessoas permaneçam juntas, mas ajudá-las a construírem relacionamentos saudáveis, sustentáveis e alinhados com um projeto de vida realista.
Portanto, mesmo nos casos em que o casal chega à terapia de casal por uma crise instalada pelos efeitos colaterais do estilo tradwife, meu papel enquanto psicólogo é ajudar o casal a refletir sobre o que sustentou a relação até aquele momento e, mais importante, como podem adaptar a relação para um futuro que seja viável e satisfatório para ambos. Afinal, a vida muda, as pessoas mudam. E os relacionamentos precisam acompanhar essas mudanças.
Muitas pessoas não consideram essa lógica tão fundamental e, quando o casamento chega ao fim, se veem sem estrutura para recomeçar. Por isso, uma relação saudável não se sustenta em renúncias extremas ou dependência emocional e financeira. Ela deve ser construída sobre autonomia, reciprocidade e um projeto de vida realista – um que considere não apenas o presente, mas também o futuro.
Você está construindo um relacionamento real ou uma fantasia?
Se hoje o modelo tradwife faz sentido para você, ótimo. Mas você já pensou nas consequências caso o cenário mude?
- Você teria autonomia para seguir sua vida se necessário?
- Seu relacionamento está baseado em um vínculo real ou em um papel fixo que pode não se sustentar com o tempo?
Como mencionei anteriormente, relacionamentos saudáveis precisam acompanhar a trajetória da vida e não ficarem presos a um ideal retrógrado e rígido que pode se tornar uma armadilha. De qualquer modo, seja qual for sua escolha hoje ou o momento da relação no futuro, saiba que pode contar com a terapia de casal para refletir melhor sobre suas decisões e construir um relacionamento mais saudável e sustentável.
Afinal, embora o tradwife seja uma tendência em ascensão, posso afirmar, com base na minha experiência, que existe um lado B que as redes sociais não mostram.
📢 O que você acha do movimento tradwife? Ele pode ser sustentável a longo prazo? Deixe seu comentário e compartilhe sua visão! Siga minhas redes sociais!