Recentemente fui convidado pelo portal VivaBem UOL para contribuir com um olhar sobre vínculos de amizade e bem-estar. Sem dúvidas, poder contribuir com um tema tão importante é, para mim, motivo de orgulho, mas também de responsabilidade. Afinal, trata-se de uma oportunidade de ampliar uma conversa necessária, especialmente em um tempo em que parte significativa da população tem buscado centralizar quase todas as relações no relacionamento amoroso.
Em minha prática clínica, percebo como é crescente a ideia — frequentemente equivocada — de que o relacionamento amoroso deve suprir todas as demandas emocionais e subjetivas das pessoas. Justamente por isso, é importante discutirmos que uma vida emocional saudável não se sustenta apenas no amor romântico. Afinal, é na diversidade e na qualidade dos vínculos que construímos ao longo da vida que experimentamos uma forma mais ampla e consistente de bem-estar e saúde emocional.
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Por que ainda centralizamos tudo no amor romântico?
Vivemos em uma cultura que, de forma quase silenciosa, nos ensina a centralizar todas as vivências emocionais e sentimentais no relacionamento amoroso. Por trás dessa crença — frequentemente equivocada — está a ideia de que o bem-estar emocional depende, principalmente, de encontrar “a pessoa certa” e de centralizar nela tudo o que sentimos, esperamos e precisamos. Embora essa lógica seja amplamente difundida, ela pode ser também limitadora e, em alguns casos, até perigosa.
Quando colocamos no relacionamento amoroso a função de sustentar todas as nossas subjetividades e necessidades emocionais, acabamos sobrecarregando e distorcendo esse vínculo. Consequentemente, passamos a nutrir a expectativa de que o parceiro ou a parceira seja, ao mesmo tempo, par romântico, companhia, suporte, validação, acolhimento, escuta, parceria, confidente e, muitas vezes, até a única fonte de conexão.
Evidentemente, isso não é saudável — e, mesmo que fosse, ninguém sustentaria tamanha sobrecarga por tanto tempo. Ainda assim, em alguns casos, essa lógica é utilizada como uma tentativa de lidar com inseguranças pessoais, buscando controle sobre o outro e restringindo, ainda que de forma sutil, a presença de outros vínculos. Por exemplo, aquela pessoa insegura que, além de par romântico, tenta se colocar como amigo, confidente, psicólogo… tudo na vida da outra pessoa. Dessa forma, relações externas, especialmente as amizades, podem passar a ser vistas como ameaça, e não como parte legítima da vida emocional.
Na minha prática clínica, me deparo com esse fenômeno com frequência: relações tensionadas não apenas pelos conflitos em si, mas pelo peso excessivo de quem tenta sustentar emocionalmente o vínculo sozinho. E, muitas vezes, o que aparece não é apenas um problema do relacionamento em si, mas a ausência de outros vínculos que poderiam ampliar e sustentar a experiência emocional. As relações de amizade desempenham um papel fundamental na construção do bem-estar e da saúde emocional.
Amizade e relacionamento amoroso: a diversidade das relações sustenta o bem-estar
Embora muitas pessoas relutem em reconhecer, o bem-estar dificilmente se sustenta quando está concentrado em uma única relação. Ele tende a se construir na diversidade de vínculos que atravessam a nossa vida. Nesse sentido, as amizades ocupam um lugar fundamental. Aqui não se trata de dizer que uma amizade substitua uma relação amorosa, tampouco o contrário. Na verdade, são relações distintas e complementares, que compõem a construção de uma experiência ampliada de bem-estar saudável e sustentável.
Quando uma pessoa consegue construir e manter relações diversas, ela acessa algo muito rico e altamente desejável para sua saúde emocional e seu bem-estar. Afinal, quanto mais diversas forem suas experiências, maior a chance de contar com relações que ampliam o olhar, oferecem outros espaços de escuta, acolhimento e pertencimento e ajudam a distribuir emocionalmente aquilo que, quando concentrado em um único vínculo, tende a sobrecarregar.
Além disso, essa diversidade também reduz o risco de a pessoa se ver capturada por dinâmicas de controle ou manipulação dentro do relacionamento amoroso, ampliando sua autonomia emocional.
Em minha prática clínica e nos estudos sobre relacionamentos e qualidade de vida, observo como é evidente o impacto das relações de amizade no bem-estar. Portanto, não é apenas desejável que a pessoa, para além do seu relacionamento amoroso, tenha a oportunidade de experienciar vínculos de amizade ao longo da vida. Em muitos casos, isso é parte essencial para a construção de uma vida emocional mais plena.
O seu relacionamento permite que você tenha amizades?
Essa é uma pergunta que, embora simples, pode revelar muito sobre a saúde emocional de um relacionamento. Em alguns casos, o que vemos não é apenas a centralização afetiva no casal, mas também a redução — ou até o enfraquecimento — dos vínculos de amizade ao longo do tempo.
Geralmente, isso acontece de forma sutil, quase imperceptível. Aos poucos, a rotina do casal ocupa todos os espaços, e outras relações vão sendo deixadas em segundo plano. Em situações assim, ocorre algo que costumo chamar, de forma didática, de um “ganha-ganha”: por um lado, há quem se sinta contemplado por não precisar se expor tanto ou lidar com opiniões externas; por outro, essa dinâmica pode acabar favorecendo, ainda que de maneira indireta, a manutenção de inseguranças dentro da relação.
No entanto, como vimos, essa organização nem sempre é neutra. Em alguns casos, ela pode estar associada a tentativas de lidar com inseguranças por meio do controle do parceiro ou da parceira, limitando a presença de outros vínculos importantes.
Mas, em outros cenários, isso não acontece de forma tão espontânea assim. Existem relações em que há desconforto, controle ou até restrições explícitas em relação às amizades. Situações em que sair com amigos, manter vínculos próximos ou simplesmente investir em outras relações passa a ser visto como ameaça ao relacionamento. Por isso, é importante que você compreenda o valor de nutrir amizades ao longo da vida.
E aqui vale uma reflexão importante:
Um relacionamento saudável não é aquele que concentra tudo em si, mas aquele que também permite e sustenta a existência de outros vínculos importantes. A amizade, nesse contexto, não é um risco para o relacionamento. Ela é, muitas vezes, um indicativo de que a vida emocional está mais distribuída, mais viva e menos sobrecarregada.
Relações mais equilibradas começam fora do casal?
Antes de terminarmos, há um ponto que também considero importante para refletirmos. Curiosamente, fortalecer outras relações pode ser também uma forma de cuidar do próprio relacionamento amoroso. Você já pensou sobre isso?
Quando a vida emocional não está concentrada em um único vínculo, o casal respira melhor. Há mais espaço, menos cobrança e mais possibilidade de encontro real e saúdável.
Não se trata de diminuir a importância do amor romântico, mas de retirá-lo do lugar de centralidade absoluta. A questão é que precisamos compreender que uma vida emocional mais saudável não depende apenas de escolher bem com quem se relacionar. É importante também reconhecer a importância de como nos relacionamos com o mundo — e com quantas pessoas construímos esses vínculos, incluindo, de forma essencial, as nossas amizades.
Portanto, é fundamental reconhecer o papel das relações de amizade no bem-estar e na saúde emocional.
Se você percebe que há algo desequilibrado no seu relacionamento amoroso — ou mesmo nas suas relações de amizade —, a psicoterapia pode ser um caminho importante para compreender e reorganizar esses vínculos.






