Hoje recebi no consultório a equipe da Record Bahia para gravar uma entrevista sobre as reações que podem surgir em situações de assalto e perigo. Durante a conversa, expliquei por que reagir a assalto pode ocorrer de forma rápida e pouco planejada, mesmo quando a pessoa conhece a recomendação de não enfrentar quem pratica o crime.
A emissora exibirá a matéria amanhã em sua programação. Casos recentes de pessoas que morreram durante assaltos ou após alguma reação motivaram a pauta. Por isso, procurei destacar a importância de compreender as respostas do organismo diante do perigo e, ao mesmo tempo, conhecer orientações capazes de reduzir os riscos.
Também falei sobre os efeitos psicológicos que podem surgir depois de uma experiência violenta. Quem sofre ou presencia um assalto pode apresentar medo, insegurança e dificuldade para retomar determinadas atividades. Entretanto, as reações variam, e nem toda pessoa desenvolverá um trauma persistente ou um transtorno psicológico.

Elídio Almeida, psicólogo em Salvador, especialista em terapia de casal e relacionamentos.
Por que reagir a assalto pode ocorrer automaticamente?
As pessoas recebem com frequência a orientação de nunca reagir a um assalto. Ainda assim, algumas realizam movimentos inesperados, tentam fugir, enfrentam o agressor ou permanecem completamente imóveis durante a abordagem. Essas respostas nem sempre resultam de uma decisão racional e planejada.
Ao identificar uma ameaça, o organismo inicia uma resposta de defesa. O coração pode acelerar, os músculos ficam tensos, a respiração muda e a atenção se concentra no perigo. A pessoa também pode apresentar respostas de luta, fuga ou congelamento.
Essas reações ajudam a explicar por que alguém pode agir de maneira diferente daquela que imaginava antes da situação. No entanto, não podemos chamar toda ação de reflexo ou instinto. Um reflexo representa uma resposta involuntária mais simples, enquanto o comportamento durante um assalto também depende da percepção, do contexto, das experiências anteriores e das possibilidades identificadas naquele momento.
O medo intenso pode reduzir a capacidade de analisar alternativas, mas não elimina necessariamente os aprendizados anteriores. Orientações de segurança, treinamentos e conhecimento sobre os riscos podem influenciar a resposta, embora nenhuma preparação garanta controle absoluto em uma situação tão imprevisível.
Compreender esse processo evita julgamentos contra quem sofreu a violência. Uma pessoa que se movimenta durante o assalto não age necessariamente por irresponsabilidade ou desprezo pela própria vida. Em alguns casos, o corpo responde antes que ela consiga avaliar conscientemente todas as consequências.
Como reduzir os riscos durante uma abordagem?
A orientação para não reagir a assalto continua fundamental. Compreender as respostas automáticas não significa considerar o enfrentamento seguro nem estimular qualquer tentativa de impedir o crime.
A Polícia Civil da Bahia recomenda evitar reações durante um assalto. Outras orientações oficiais também indicam que a pessoa não faça movimentos bruscos, procure manter a calma e avise antes de colocar a mão em bolsas ou bolsos.
Durante uma abordagem, qualquer movimento inesperado pode receber uma interpretação equivocada e aumentar o risco. Por exemplo, a pessoa pode tentar alcançar documentos, retirar o cinto de segurança ou entregar um objeto. Quem pratica o crime, porém, pode interpretar o gesto como tentativa de buscar uma arma ou reagir.
Essa explicação não transfere a responsabilidade pela violência para a vítima. A responsabilidade pertence a quem ameaça, agride ou utiliza uma arma. O objetivo consiste apenas em reconhecer que, numa situação de tensão, movimentos repentinos podem tornar o cenário ainda mais perigoso.
Sempre que possível, a pessoa deve evitar resistência, comunicar qualquer movimento necessário e priorizar a própria integridade. Depois que o agressor sair e houver segurança, deve procurar a polícia e relatar o ocorrido. Perseguir quem praticou o crime ou tentar recuperar os bens por conta própria pode ampliar o risco.
A prevenção também pode incluir atenção ao ambiente, redução de exposições desnecessárias e conhecimento dos canais de emergência. Entretanto, nenhuma estratégia elimina completamente a possibilidade de um crime. Por isso, não devemos responsabilizar a vítima por não ter conseguido evitar a abordagem.
O que pode acontecer depois de um assalto?
Quem sobrevive a um assalto ou presencia uma cena violenta pode apresentar diferentes reações emocionais. Nos primeiros dias, medo, dificuldade para dormir, irritabilidade, lembranças do ocorrido e maior atenção a possíveis ameaças podem fazer parte da resposta ao evento.
Algumas pessoas também passam a sentir medo em situações semelhantes àquela vivida. Um local, uma roupa, um veículo, um som ou a aproximação de alguém pode despertar reações parecidas com as que surgiram durante o assalto. Na análise do comportamento, esse processo pode envolver a generalização respondente.
A generalização acontece quando estímulos que compartilham características com a situação traumática também provocam medo ou respostas de defesa. A intensidade varia conforme a semelhança percebida e a história de cada pessoa. Entretanto, esse mecanismo não explica sozinho todas as consequências psicológicas de uma experiência violenta.
Muitas pessoas recuperam gradualmente a sensação de segurança e retomam a rotina sem desenvolver um transtorno. Outras permanecem com sintomas intensos, evitam lugares e atividades, apresentam lembranças invasivas ou vivem em constante estado de alerta.
Quando essas reações persistem, provocam sofrimento significativo ou comprometem a vida pessoal, profissional e afetiva, a pessoa deve procurar ajuda psicológica. A avaliação permitirá compreender os sintomas, as circunstâncias do trauma e as intervenções mais adequadas para cada caso.
A psicoterapia pode ajudar a elaborar a experiência, reduzir o medo e recuperar atividades interrompidas após o assalto. O tratamento não segue uma única técnica para todas as pessoas, pois cada história exige uma análise individual.
Entender por que alguém pode reagir a assalto ajuda a evitar julgamentos e amplia a compreensão sobre as respostas humanas ao perigo. Ainda assim, a principal orientação permanece: não enfrentar quem pratica o crime, evitar movimentos bruscos e priorizar a vida.
Não controlamos todas as situações de risco nem todas as respostas do organismo. Porém, informação, atenção e prevenção podem aumentar as possibilidades de agir com maior segurança. Por isso, previna-se.






