A relação entre selfie e egocentrismo passou a chamar atenção à medida que esse tipo de fotografia se tornou popular nas redes sociais. Para quem ainda não conhece o termo, “selfie” é um autorretrato, geralmente produzido com smartphones, tablets, câmeras digitais ou webcams e, em seguida, compartilhado na internet.
Uma selfie pode reunir apenas uma pessoa, uma dupla ou um grupo. Algumas dessas fotografias fazem tanto sucesso que acabam estimulando outras pessoas a repetir o comportamento, criando poses, tendências e maneiras cada vez mais inusitadas de chamar atenção.
Desde que começaram a se popularizar, as selfies ganharam até categorias. Algumas são bem-humoradas, ou consideradas ridículas por muita gente, como a famosa “duck face”, também conhecida como “cara de pato”.
Outras chamam atenção por algo inesperado ou constrangedor no plano de fundo. Há também aquelas em que a pessoa parece tão preocupada em registrar a própria presença que tudo o que acontece ao redor perde a importância.
Nesses casos, mais importante do que julgar a personalidade de quem aparece na fotografia é observar o comportamento retratado. Uma selfie isolada não permite concluir que alguém seja egocêntrico, tenha pouco controle emocional ou apresente dificuldades de empatia. No entanto, determinados registros podem revelar uma preocupante falta de sensibilidade diante do contexto e das pessoas envolvidas.
Qual é a relação entre selfie e egocentrismo?
O egocentrismo é uma característica relacionada à dificuldade de considerar perspectivas, sentimentos e necessidades diferentes das próprias. Quando esse padrão se manifesta com frequência, a pessoa tende a priorizar seus desejos e sua maneira de interpretar as situações, sem perceber adequadamente os efeitos de suas ações sobre os demais.
Consequentemente, ela pode demonstrar pouca habilidade para lidar com algumas situações sociais, colocar-se no lugar do outro e compreender o que determinado momento exige. Isso não significa, porém, que toda pessoa que publica muitas selfies seja egocêntrica.
O problema não está necessariamente no autorretrato. Afinal, fotografar a si mesmo pode ser apenas uma forma de registrar momentos, expressar identidade, divertir-se ou compartilhar experiências. A questão surge quando a vontade de aparecer se sobrepõe ao respeito, à empatia e à sensibilidade diante do que acontece ao redor.
A popularização das selfies tem revelado situações em que algumas pessoas parecem ignorar completamente o contexto. Nesses casos, a fotografia deixa de ser apenas um registro pessoal e passa a expor comportamentos que merecem reflexão.

Elídio Almeida, psicólogo em Salvador, especialista em terapia de casal e relacionamentos.
Quando a selfie ignora o contexto
Um dos casos mais conhecidos foi a selfie feita durante a cerimônia em homenagem a Nelson Mandela. Na imagem aparecem o então presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, o primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron, e a primeira-ministra da Dinamarca, Helle Thorning-Schmidt.
Parte da população mundial considerou o gesto inadequado para uma cerimônia fúnebre. Para essas pessoas, a descontração registrada na fotografia não correspondia ao pesar expresso nos discursos e nas declarações públicas.
Algo semelhante aparece em uma compilação publicada no Tumblr, formada por selfies feitas ao lado de pessoas em situação de rua. Ainda que alguns considerem essas imagens normais ou engraçadas, é difícil ignorar o contraste: enquanto uma pessoa enfrenta uma situação de sofrimento e vulnerabilidade, outra posa alegremente para uma fotografia.
Casos assim podem parecer tão absurdos que despertam algumas perguntas: o que levou essa pessoa a agir dessa maneira? Ela percebeu o que acontecia ao redor? Pensou em como sua atitude poderia afetar ou expor os demais?
Essas perguntas são importantes. Contudo, não podemos diagnosticar um transtorno psicológico nem definir toda a personalidade de alguém com base em uma única fotografia. O que podemos — e devemos — analisar é a inadequação do comportamento e a falta de sensibilidade que aquela imagem revela.
Selfie e egocentrismo nas redes sociais
Talvez você considere algumas dessas selfies bizarras. Ainda assim, provavelmente já riu, ficou curioso ou achou alguma delas tão inusitada que decidiu curtir ou compartilhar em suas redes sociais.
Quando fazemos isso, ajudamos a ampliar a visibilidade daquele conteúdo. Além disso, demonstramos para quem publicou que a fotografia despertou interesse e gerou alguma forma de aprovação. Dessa maneira, mesmo sem perceber, podemos estimular a repetição daquele comportamento.
As curtidas, os comentários e os compartilhamentos funcionam como formas de reforço social. Quando uma publicação recebe muita atenção, a pessoa pode entender que aquela atitude foi aceita, valorizada ou recompensada pelo público. Por isso, ela tende a repetir o comportamento ou até intensificá-lo para conquistar novas reações.
Isso não significa que toda curtida represente uma concordância consciente. Muitas vezes, as pessoas interagem por curiosidade, espanto ou diversão. Entretanto, para os mecanismos de distribuição das redes sociais, a motivação importa menos do que a interação: quanto mais reações uma publicação recebe, maior pode ser sua circulação.
Por isso, quem curte e compartilha não estimula apenas a fotografia. Também pode reforçar os comportamentos associados à sua produção, inclusive quando envolvem exposição indevida, insensibilidade ou desrespeito ao contexto.
Como as selfies podem revelar comportamentos egocêntricos?
À primeira vista, pensar dessa forma pode parecer exagerado. Entretanto, ação após ação, curtida após curtida e selfie após selfie, podemos normalizar comportamentos que enfraquecem características fundamentais da convivência humana, como empatia, respeito e sensibilidade diante do sofrimento alheio.
A mulher retratada na imagem acima, por exemplo, foi fotografada enquanto fazia uma selfie na Ponte do Brooklyn, em Nova York. Ao fundo, havia um homem em uma situação de risco, aparentemente tentando pular da ponte.
O que torna a cena perturbadora não é apenas o desejo de produzir um autorretrato, mas a aparente incapacidade de perceber a gravidade do que acontecia naquele momento. Em vez de voltar a atenção para a situação, a pessoa decidiu incluí-la no próprio registro.
Entre os problemas relacionados a selfies desse tipo, um dos mais graves é justamente a dificuldade de pensar nas consequências do próprio comportamento. Além de revelar pouca sensibilidade, a fotografia pode expor alguém em sofrimento, transformar uma situação grave em entretenimento e estimular outras pessoas a agir da mesma maneira.
Em outro texto aqui no blog, falei sobre o perigo de se expor demais nas redes sociais. Muitas pessoas compartilham aspectos da vida sem avaliar os riscos envolvidos e, com isso, podem enfrentar consequências significativas para a privacidade, a imagem e o convívio social.
Quem compartilha também precisa refletir
A mudança exige empenho tanto de quem publica quanto de quem entra em contato com essas imagens. Se continuarmos oferecendo atenção e visibilidade a comportamentos inadequados, eles provavelmente continuarão se repetindo.
A relação entre selfie e egocentrismo, portanto, não envolve somente quem produz a fotografia. Ela também exige que cada pessoa reflita sobre a forma como reage ao conteúdo e contribui para sua circulação.
Antes de curtir ou compartilhar uma imagem, vale a pena perguntar: que comportamento estou ajudando a divulgar? Essa fotografia respeita as pessoas envolvidas? Eu gostaria que alguém fizesse o mesmo comigo em uma situação de sofrimento ou vulnerabilidade?
Talvez possamos transformar essa realidade quando aprendermos a compreender, estimular e valorizar aquilo que produz bons resultados para todos os envolvidos. Isso também significa deixar de oferecer visibilidade a comportamentos que transformam o sofrimento, a intimidade ou a vulnerabilidade de outras pessoas em entretenimento.
Faça a sua parte e lembre-se: quando falamos de selfie e egocentrismo, quem curte e compartilha também pode estimular e aprovar.







Selfie- Um caso preocupante.