Desde a tragédia do dia 27 de janeiro de 2013, em Santa Maria-RS — que deixou 235 mortos e levou outras 143 pessoas à hospitalização após o incêndio na boate Kiss — acompanhamos inúmeras manifestações de emoção e solidariedade diante desse drama, que se tornou o segundo maior incêndio do Brasil.

No entanto, ao mesmo tempo em que essas manifestações surgem, muitas delas passam a ser alvo de críticas, questionamentos e, consequentemente, de intensa polêmica.

Tragédia em Santa Maria: quando a dor vira disputa

Dentre todas as notícias que li e acompanhei, algumas me chamaram atenção, sobretudo pela frieza e pelo oportunismo com que, em certos casos, pessoas se apropriam de uma tragédia dessa dimensão para defender ou fomentar orientações políticas, religiosas ou ideológicas.

Inclusive, uma pessoa que acompanha o blog me recomendou uma dessas notícias, e isso me motivou a refletir mais profundamente sobre o tema.

Nesse sentido, um dos pontos que mais me marcou foi o debate em torno do choro da então presidente Dilma ao se pronunciar sobre a tragédia.

No texto analisado, o autor estabelece um paralelo entre o número de vítimas do incêndio e a quantidade de jovens mortos anualmente no Brasil por crimes de homofobia, chegando a questionar: “Por que a presidenta não chora pelos gays?” (fonte).

Tragédia de Santa Maria e reflexão sobre julgamento e dor por Elídio Almeida, psicólogo em Salvador especialista em terapia de casal
A dor do outro não pode ser medida, mas pode — e deve — ser respeitada.
Elídio Almeida, psicólogo em Salvador, especialista em terapia de casal e relacionamentos

Disputa desleal: quando comparamos dores incomparáveis

A discussão sobre homofobia e seus efeitos danosos é, sem dúvida, necessária e deve permanecer em pauta. No entanto, não me parece adequado colocar em escala de comparação tragédias distintas, como se uma pudesse diminuir a gravidade da outra.

Ao contrário, penso que ambas possuem igual relevância e exigem atenção, responsabilidade e sensibilidade.

Afinal, em todos esses contextos há perdas irreparáveis, sofrimento intenso, famílias devastadas e histórias interrompidas. E, justamente por isso, transformar essas dores em disputa fragiliza ainda mais o debate público.

O choro é verdadeiro? Limites do julgamento emocional

Mas, afinal, por que o choro da presidente gerou tanta desconfiança?

Muitos afirmaram que seria “falso”, “eleitoreiro” ou “sem emoção”. E foi exatamente esse ponto que me levou a refletir de forma mais cuidadosa.

Com que propriedade podemos afirmar que a emoção expressa por alguém é verdadeira ou não?

Essa questão me remete às primeiras aulas de análise do comportamento, durante minha formação, quando aprendi sobre a diferença entre comportamento público e comportamento privado.

O comportamento público é aquele que pode ser observado por outras pessoas — como o ato de chorar, por exemplo. Já o comportamento privado diz respeito às experiências internas, como sentimentos e pensamentos, que só podem ser acessados por quem os vivencia.

Portanto, embora possamos observar o choro, não temos acesso direto ao que a pessoa sente. Isso significa que qualquer julgamento sobre a “verdade” dessa emoção será, inevitavelmente, uma inferência — e, muitas vezes, uma inferência equivocada.

Quem vê comportamento, não vê necessariamente o que está por trás

Situações como essa são mais comuns do que parecem.

No cotidiano, frequentemente interpretamos comportamentos visíveis e, a partir deles, construímos julgamentos, conclusões e até narrativas completas sobre o outro.

No entanto, essas interpretações nem sempre consideram a complexidade da experiência humana — e, por isso, podem gerar distorções importantes.

Além disso, esse processo tende a se intensificar quando está atravessado por interesses diversos, sejam eles políticos, ideológicos ou mesmo pessoais.

Vivemos em uma sociedade que, historicamente, aprendeu a utilizar expressões emocionais — especialmente públicas — como instrumentos de convencimento, influência e validação. E isso aparece, por exemplo, em campanhas publicitárias, discursos políticos e até em ações de solidariedade.

Relações humanas e empatia: o que isso tem a ver com nós?

Se ampliarmos essa reflexão, veremos que essa lógica também atravessa nossos relacionamentos.

Em muitos contextos — inclusive nas relações familiares e amorosas — julgamos o outro a partir do que conseguimos observar, sem considerar aquilo que não está visível.

Na minha prática clínica, é comum perceber como interpretações precipitadas sobre comportamentos podem gerar conflitos, afastamentos e sofrimento desnecessário.

Por isso, desenvolver a capacidade de suspender julgamentos e ampliar a escuta é um passo importante para relações mais saudáveis e mais empáticas.

Sobre dor, julgamento e humanidade

Diante de tudo isso, talvez seja importante lembrar de algo simples, mas profundamente necessário: não temos como medir a dor do outro.

Como disse Caetano Veloso, “cada um sabe a dor de ser o que é”.

Seja diante de uma tragédia coletiva, de um episódio de preconceito ou de uma dor individual, o sofrimento humano não deve ser comparado, hierarquizado ou instrumentalizado.

Pelo contrário, ele deve ser reconhecido, respeitado e acolhido.

E, talvez, seja exatamente esse o ponto mais lamentável em tudo isso: quando, diante da dor, escolhemos julgar em vez de compreender.

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One Comment

  • Magno disse:

    Muito interessante essa abordagem sobre o comportamento privado e público.
    Também achei um absurdo questionarem o choro/comoção da presidenta.
    Sobre o fato de se aproveitarem do caso para “fomentar suas orientações políticas, religiosas, sexuais”, acho uma indelicadeza total.
    Triste ver cristãos que em tese, pregam o amor, falando verdadeiras insanidades.
    Comparar os casos de homofobia, aborto, e regime penitenciário com o ocorrido em Santa Maria e em seguida julgar o que é trágico e o que não é, também acho muito pretensioso.
    Entretanto não penso que tenha sido essa a intenção do autor do texto “Por que a presidenta não chora pelos gays?”, pelo menos de acordo com a minha interpretação.
    O título escolhido por ele foi muito, muito infeliz, eu mesmo fiz um julgamento de todo o texto apenas por tal título, e quase nem lia o mesmo. Justamente porque não achei uma comparação legal. Mas ainda assim me dispus a ler. E gostei! Bastante!
    O autor logo no início já nos convida a “refletir sobre a situação de forma não personalista, afinal, Dilma não foi a única a se comover publicamente diante dessa tragédia e não diante de outras”. Ele também diz que não é o objetivo discutir “sobre quem tem ou não tem o mérito de ser chorado”, mas sugere analisarmos o seguinte: “porque a cultura que seleciona o que é trágico e o que não é os/as elegeram em detrimento de outros/as como merecedores de comoção?”.
    Não vi o texto como uma crítica ao comportamento privado da presidenta. Acredito que o autor tenha feito a mesma coisa que você Elídio, usou o ocorrido para analisar comportamentos, e não julgar a veracidade do choro/comoção dela, tampouco levantar bandeiras de suas ideologias politicas, religiosas ou sexuais…
    Ótimos textos!!
    Recomendo que também leiam o texto do outro autor e tirem suas próprias conclusões.
    Link: http://acapa.virgula.uol.com.br/colunas/por-que-a-presidenta-nao-chora-pelos-gays/10/104/21489

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