O Dia dos Namorados se aproxima e, junto com ele, uma avalanche de propagandas tentando nos convencer de que o amor cabe dentro de uma caixa, de uma sacola, de um embrulho ou de um laço de fita. Não por acaso, a maioria dos homens e mulheres que vivem em um relacionamento amoroso fica ansiosa, apreensiva e na expectativa do que vão dar ou receber nesta data. Porém, para muitas pessoas, essa forma de demonstrar sentimentos e emoções não se restringe ao Dia dos Namorados. Flores, perfumes, chocolates, joias, roupas, cestas de café da manhã, jantares e uma infinidade de mimos surgem como símbolos da importância que algumas pessoas ocupam em nossa vida.

Esse contexto me parece especialmente propício para o penúltimo texto da série sobre as linguagens do amor, no qual proponho algumas reflexões sobre a quinta linguagem do amor proposta por Chapman: receber presentes. Afinal, para algumas pessoas, esses gestos podem, de fato, representar cuidado, lembrança e afeto.

Entretanto, em alguns contextos, algumas pessoas passaram a utilizar essa lógica como uma forma de medir a intensidade e o vínculo de um relacionamento pelo valor da nota fiscal ou pela grandiosidade da surpresa preparada. Além disso, receber presentes talvez seja a linguagem do amor mais criticada pelo corpo social, justamente porque muitas pessoas a associam à ideia de comprar afeto e sentimentos por meio dos presentes. Portanto, em meio a tantas questões e expectativas, penso que devemos refletir: até que ponto os presentes fortalecem a conexão emocional e quando passam a ocupar o lugar daquilo que realmente sustenta uma relação?

Receber presentes: mulher demonstra frustração ao receber um presente do parceiro, ilustrando desencontros relacionados às diferentes linguagens do amor.
“Nem sempre o valor de um presente está no objeto oferecido, mas no significado que ele assume para quem recebe. Quando as linguagens do amor são diferentes, gestos bem-intencionados podem não ser percebidos como expressão de carinho.” — Elídio Almeida, psicólogo em Salvador, especialista em terapia de casal e relacionamentos.

O problema não está nos presentes

Receber presentes pode, sim, ser uma forma legítima de expressar afeto. Para algumas pessoas, um objeto escolhido com atenção comunica cuidado, lembrança e consideração. Não se trata de materialismo, mas de significado. Um livro que o parceiro comentou meses atrás. Uma lembrança simples de uma viagem. Uma carta escrita à mão. Um chocolate comprado após um dia difícil. Em muitos casos, o presente funciona como uma evidência concreta de que alguém foi visto, escutado e lembrado.

Ao mesmo tempo, é importante reconhecer que o parceiro nem sempre compreende essa linguagem do amor. Ou seja, aquilo que faz muito sentido para quem presenteia nem sempre produz o mesmo impacto emocional em quem recebe o presente. Por exemplo, em meus atendimentos, é comum encontrar pacientes que desejam receber outras formas de demonstração de afeto. Por outro lado, algumas pessoas se angustiam ao perceber suas dificuldades em expressar sentimentos de maneiras diferentes daquela que aprenderam a utilizar ao longo da vida: dar e receber presentes como demonstração de amor. Em alguns relacionamentos, essa diferença pode gerar frustrações, mal-entendidos e a sensação de que o amor oferecido nunca é suficiente ou adequadamente reconhecido.

Talvez a questão não esteja nos presentes em si, mas no significado que eles possuem para cada um dos membros do casal e no lugar que ocupam dentro da dinâmica da relação. Afinal, dar e receber presentes podem fortalecer vínculos, expressar gratidão e materializar o carinho existente entre duas pessoas. Porém, quando cada parceiro atribui significados muito diferentes a esses gestos, aquilo que pretendia aproximar pode produzir justamente o efeito contrário. Nesses casos, a conexão emocional se enfraquece e conflitos desnecessários surgem na relação.

Receber presentes é sinônimo de materialismo?

Dar e receber presentes é uma linguagem do amor frequentemente criticada. Para algumas pessoas, ela parece sustentar a ideia de que sentimentos podem ser comprados por meio de investimentos financeiros e bens materiais. Embora essa generalização seja falha, é importante reconhecer que algumas pessoas realmente compreendem os relacionamentos a partir dessa lógica. Elas atribuem ao dinheiro e aos presentes um papel central na demonstração e na validação do afeto. Entretanto, essa compreensão não representa a experiência de todas as pessoas que se identificam com essa linguagem do amor.

Ainda assim, existe um grupo significativo de pessoas que espera demonstrações de amor prioritariamente por meio dos presentes. Em outros casos, algumas pessoas acreditam que recompensas materiais podem conquistar, manter ou recuperar o afeto dentro de uma relação. Entretanto, reduzir toda a linguagem do amor dar e receber presentes a essas interpretações talvez seja um equívoco. Seria o mesmo que considerar que palavras de afirmação se resumem a elogios vazios ou que atos de serviço representam apenas obrigações domésticas.

O desafio, portanto, está em compreender o significado que cada pessoa atribui aos presentes dentro da dinâmica da relação. Para alguns, eles representam atenção, cuidado e a alegria de se sentirem lembrados. Para outros, podem carregar expectativas distorcidas sobre o funcionamento dos relacionamentos amorosos. Talvez seja justamente essa complexidade que torne a linguagem do amor dar e receber presentes uma das mais incompreendidas e criticadas pelo corpo social.

Entretanto, nem toda crítica direcionada a essa linguagem está associada à lógica materialista dos relacionamentos. Em alguns casos, o problema surge quando os presentes passam a ocupar o lugar de conversas importantes, pedidos de desculpas sinceros e mudanças efetivas de comportamento dentro da relação.

Receber presentes: casal abraçado demonstra conexão emocional enquanto um presente aparece ao lado, representando o significado afetivo atribuído aos gestos de carinho.
“Na linguagem de amor de receber presentes, o que fortalece a relação não é o valor financeiro do gesto, mas a mensagem silenciosa de que o outro foi lembrado, considerado e valorizado.” — Elídio Almeida, psicólogo em Salvador, especialista em terapia de casal e relacionamentos.

Quando os presentes ocupam o lugar do diálogo

Além das diferenças na forma como cada pessoa compreende e expressa o amor, há outro desafio importante envolvendo a linguagem do amor dar e receber presentes. O problema surge quando os presentes passam a ocupar o lugar de conversas que nunca acontecem, de pedidos de desculpas que nunca são feitos ou de mudanças que nunca chegam. Embora presentes possam representar tentativas sinceras de reparação, eles dificilmente conseguem sustentar, sozinhos, aquilo que exige maturidade, responsabilização, escuta e transformação.

Na prática clínica, não é raro encontrar casais em que os presentes deixam de expressar afeto espontaneamente. Em vez disso, transformam-se em tentativas de compensar conflitos não resolvidos, ausências emocionais ou comportamentos que prejudicaram a confiança e o bem-estar da relação. Em algumas situações, após episódios de mentiras, negligência ou até mesmo traições, presentes e viagens passam a funcionar como uma espécie de atalho para evitar conversas difíceis e o enfrentamento das consequências produzidas pelos próprios atos que impuseram danos à convivência do casal.

Por isso, é fundamental destacar que nenhum presente é capaz de substituir mudanças concretas de comportamento. Joias não restauram a confiança. Flores não eliminam ressentimentos. Jantares românticos não resolvem problemas de comunicação. Viagens não apagam a dor de uma traição. Quando a linguagem do amor dar e receber presentes é utilizada para silenciar dores, abreviar conflitos ou comprar perdão, os mimos deixam de aproximar e passam a dificultar o contato genuíno com aquilo que realmente precisa ser elaborado pelo casal.

Quando o mercado define o que é amar

Ao discutir as linguagens do amor, especialmente a lógica de dar e receber presentes, também precisamos considerar como aprendemos a amar e a demonstrar afeto. Vivemos em uma cultura que frequentemente associa amor e demonstrações de afeto a atos de consumo. Datas comemorativas, como o Dia dos Namorados, transformam-se em oportunidades para provar sentimentos através de compras. Nos tempos atuais, as redes sociais contribuem imensamente para isso. Desse modo, sem perceber, podemos começar a acreditar que demonstrar amor exige performances cada vez maiores, presentes mais caros e gestos cada vez mais grandiosos. Embora essa lógica seja frequentemente reforçada pela cultura do consumo, ela pode produzir efeitos problemáticos na forma como compreendemos e vivemos os relacionamentos.

No entanto, o problema não está em presentear quem amamos, mas na mensagem implícita de que o valor do afeto pode ser medido pelo investimento financeiro realizado. Assim, aos poucos, corremos o risco de confundir significado com preço e cuidado com poder de compra. Nesse contexto, algumas pessoas passam a acreditar que quanto maior o presente, maior o amor envolvido.

Portanto, é importante reconhecer que a linguagem do amor dar e receber presentes pode ser atravessada pelos valores da sociedade de consumo. Dessa forma, não é raro que algumas pessoas aprendam a associar demonstrações de afeto quase exclusivamente aos bens materiais, reproduzindo expectativas que, muitas vezes, resultam em frustrações dentro dos relacionamentos.

Entretanto, muitas relações se fortalecem justamente nos pequenos encontros do dia a dia: no café preparado pela manhã, na mensagem enviada durante um dia difícil, na escuta atenta após uma discussão no trabalho ou na disposição para enfrentar juntos os desafios inevitáveis da vida. Talvez o desafio esteja em não permitir que o mercado dite sozinho as regras sobre como o amor deve ser vivido e demonstrado.

Cada casal precisa encontrar sua própria linguagem

Ao longo deste texto, procurei refletir sobre alguns dos aspectos que permeiam a linguagem do amor dar e receber presentes. Como vimos, trata-se de uma forma de expressão afetiva fortemente incentivada pela sociedade de consumo. Ao mesmo tempo, ela costuma ser alvo de críticas e interpretações por vezes equivocadas. No entanto, por trás dos presentes, existem significados, expectativas e dinâmicas relacionais que nem sempre ficam evidentes à primeira vista.

Justamente por isso, o olhar clínico sobre o impacto dessas atitudes na vida do casal faz toda a diferença. Na terapia de casal, os parceiros têm a oportunidade de compreender melhor as intenções presentes nos gestos de dar e receber presentes. Também podem identificar os sentimentos despertados ao oferecer ou receber determinadas demonstrações de afeto. Mais do que identificar qual é a linguagem do amor predominante de cada pessoa, o processo terapêutico possibilita a construção de novas formas de comunicação e cuidado que façam sentido para aquela relação específica.

Talvez o grande desafio esteja em não permitir que o mercado, o senso comum ou o efeito manada determinem, sozinhos, a forma como vivemos o amor. Relações saudáveis dependem da autenticidade, do diálogo e da capacidade do casal de encontrar maneiras próprias de expressar afeto, respeitando suas histórias, necessidades e singularidades. Afinal, mais importante do que repetir modelos prontos é descobrir aquilo que, de fato, fortalece a conexão emocional entre duas pessoas.

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