As linguagens do amor se tornaram uma das teorias mais populares sobre relacionamentos nas últimas décadas. Em 2024, escrevi um capítulo de livro sobre esse tema e também participei de uma matéria especial do UOL discutindo suas implicações. Desde então, tenho observado, na prática clínica e nas dinâmicas sociais, que algumas interpretações desse modelo podem acabar sustentando expectativas desequilibradas dentro das relações amorosas, especialmente os chamados “atos de serviço”.
Isso porque, embora a ideia das linguagens do amor pareça, à primeira vista, uma ferramenta de aproximação, algumas pessoas utilizam esse conceito para legitimar expectativas unilaterais incompatíveis com a harmonia, a reciprocidade e o bem-estar da relação. E é justamente nesse ponto que a reflexão se torna necessária.
Quando os “atos de serviço” deixam de ser cuidado e passam a ser exigência
Na prática clínica, observo que muitos homens se identificam com a linguagem dos “atos de serviço“, proposta por Gary Chapman. Em outras palavras, entendem que se sentem amados quando recebem demonstrações concretas de cuidado por parte da parceira. Em princípio, não há nada de problemático nisso. Afinal, todos nós possuímos necessidades afetivas legítimas e diferentes formas de perceber o amor.
O problema surge quando aquilo que poderia representar uma forma saudável de cuidado passa a ocupar o lugar de uma obrigação silenciosa dentro da relação. Nesse contexto, não basta reconhecer gestos espontâneos de carinho ou colaboração. Pelo contrário, cria-se a expectativa de que esses comportamentos ocorram de forma constante, previsível e, em alguns casos, obrigatória.
Além disso, esse movimento costuma vir revestido de um discurso aparentemente afetivo: “essa é a forma como me sinto amado”. No entanto, quando observamos essas dinâmicas mais de perto, percebemos que muitos dos chamados “atos de serviço” coincidem justamente com atividades que mantêm um dos parceiros em posição de maior conforto, enquanto o outro acumula responsabilidades.
Assim, para além da linguagem do amor, frequentemente encontramos uma sobrecarga. Isso porque muitas mulheres acabam assumindo não apenas suas demandas profissionais, mas também tarefas domésticas, responsabilidades emocionais e atividades relacionadas à manutenção do relacionamento. A despeito disso, muitas pessoas interpretam tudo isso como demonstração de amor, dedicação e compromisso.
Consequentemente, aquilo que poderia funcionar como uma via de conexão emocional acaba reforçando uma lógica desigual, na qual o cuidado deixa de ser recíproco e passa a ser esperado quase exclusivamente de um dos lados da relação.

Elídio Almeida, psicólogo em Salvador, especialista em terapia de casal e relacionamentos
O desencontro entre aquilo que se oferece e aquilo que se espera receber
Curiosamente, ao longo dos atendimentos, tenho observado uma dinâmica que merece atenção. Se por um lado muitas mulheres relatam oferecer atos de serviço como forma de demonstrar amor, também são elas que frequentemente desejam receber mais presença, atenção e disponibilidade emocional. Já muitos homens afirmam valorizar os “atos de serviço” e, em contra partida, oferecem aquilo que entendem como tempo de qualidade.
À primeira vista, isso também parece apenas uma diferença de preferências. Entretanto, quando analisamos a situação com mais profundidade, percebemos que esse desencontro pode gerar frustração para ambos os lados. Afinal, cada pessoa investe energia naquilo que considera uma demonstração legítima de amor sem necessariamente atender à necessidade afetiva do outro.
Essa combinação cria um desencontro importante. Frequentemente, uma das partes investe energia contínua na manutenção da rotina, da casa e do próprio relacionamento, enquanto a outra concentra sua demonstração de afeto em momentos específicos de convivência. O problema não está necessariamente em uma dessas formas de amar, mas na desigualdade de esforço que muitas vezes se estabelece entre elas.

Elídio Almeida, psicólogo em Salvador, especialista em terapia de casal e relacionamentos
Atos de serviço: o risco de transformar necessidades em justificativas
Diante disso, vale a pena refletir: até que ponto estamos utilizando conceitos como esse para compreender melhor o outro e construir uma relação mais equilibrada? E até que ponto estamos utilizando determinadas interpretações das linguagens do amor para justificar comportamentos que nos beneficiam, mesmo quando geram sobrecarga ou sofrimento para quem está ao nosso lado?
Quando usamos uma linguagem do amor para justificar cobranças, o relacionamento deixa de ser um espaço de construção conjunta. Automaticamente passa a funcionar como um sistema rígido de expectativas. Consequentemente, aquilo que deveria aproximar tende a produzir frustração, ressentimento e distanciamento emocional.
Essa discussão se torna ainda mais interessante quando observamos outras linguagens do amor. No próximo texto desta série, pretendo refletir sobre o chamado “tempo de qualidade” e questionar por que algo tão básico para a manutenção de qualquer relacionamento passou a ser tratado como uma demonstração especial de amor.
Afinal, dedicar tempo à relação, conversar, compartilhar experiências e estar emocionalmente disponível não deveriam ser exceções ou recompensas ocasionais. Pelo contrário, essas atitudes fazem parte dos elementos fundamentais que sustentam a vida conjugal. Quando transformamos algo tão essencial em uma espécie de moeda afetiva, corremos o risco de perder de vista uma questão importante: algumas demonstrações de amor exigem investimentos muito diferentes de tempo, energia e responsabilidade.
As linguagens do amor precisam servir ao casal
O ponto central desta reflexão não é afirmar que as linguagens do amor são necessariamente prejudiciais. Tampouco defender que devemos descartá-las. A questão é outra: nenhum modelo teórico deveria funcionar como uma regra universal capaz de explicar todas as pessoas e todos os relacionamentos.
Em minha leitura, a popularização das linguagens do amor muitas vezes dialoga com expectativas tradicionais de gênero que ainda permanecem presentes em muitos relacionamentos. Embora eu acredite que a teoria não tenha sido construída explicitamente para esse fim, não consigo deixar de observar como algumas interpretações contemporâneas acabam legitimando expectativas pouco equilibradas dentro da vida conjugal.
Talvez seja justamente por isso que, com frequência, conseguimos identificar quais linguagens costumam ser mais valorizadas pelos homens e quais acabam sendo mais frequentemente esperadas das mulheres. Essa constatação não significa que homens e mulheres amem de formas diferentes por natureza. Entretanto, pode revelar como determinados papéis sociais continuam influenciando aquilo que esperamos receber e aquilo que entendemos ser nossa responsabilidade oferecer dentro de uma relação.
Por isso, considero importante refletir criticamente sobre essas ideias e questionar de que maneira elas estão sendo aplicadas na vida real.
Na experiência terapêutica, percebo que casais constroem relacionamentos mais saudáveis quando conseguem negociar suas necessidades, rever papéis e construir acordos mais justos, em vez de seguir regras universais. Nesse sentido, a psicoterapia, especialmente a terapia de casal, pode ajudar os parceiros a identificar essas dinâmicas, compreender suas origens e construir maneiras mais saudáveis de se relacionar.
Talvez a pergunta mais importante não seja qual é a sua linguagem do amor, mas quais acordos vocês têm construído para que ambos se sintam cuidados, valorizados e respeitados dentro da relação.






