Em 2025, a cantora Urias lançou a música Voz do Brasil. Entre seus versos, há uma mensagem que nos convida a refletir sobre o enorme contraste existente entre o Brasil que propagamos para o mundo e aquele que, de fato, é vivido pela imensa maioria da população brasileira. Enquanto ouvia a música, percebi que essa mesma reflexão também nos ajuda a compreender a forma como muitas pessoas enxergam, divulgam e vivenciam seus relacionamentos reais, frequentemente marcados por uma distância considerável entre aquilo que é mostrado ao mundo por meio das redes sociais e aquilo que é efetivamente vivido nos bastidores de cada relacionamento.

Sem dúvidas, existe um Brasil das praias paradisíacas, do samba, do futebol, do carnaval e da alegria permanente. Uma imagem bonita, sedutora e facilmente comercializável. Entretanto, ao lado desse Brasil pitoresco de exportação, existe outro país, marcado por desigualdades sociais, dificuldades econômicas, violência e inúmeros desafios enfrentados diariamente por milhões de pessoas. Ainda assim, talvez o mais curioso não seja a existência dessas duas realidades, mas a facilidade com que passamos a acreditar na versão idealizada, mesmo quando nossa experiência cotidiana aponta em outra direção.

Foi justamente nesse ponto que a música me fez pensar nos relacionamentos amorosos e no meu trabalho como psicólogo clínico e terapeuta de casais. Afinal, não são raros os casos em que a imagem apresentada ao mundo pouco se parece com a experiência concreta vivida pelos parceiros na vida conjugal. Mais do que isso, muitas pessoas acabam acreditando na própria narrativa que constroem, enquanto outras passam anos tentando alcançar um modelo de amor que existe apenas nas vitrines das redes sociais. Como consequência, relacionamentos perfeitamente humanos passam a ser percebidos como insuficientes simplesmente porque são comparados a modelos de amor que existem muito mais como produto de consumo do que como experiência concreta.

Casal brasileiro registra uma selfie para publicação nas redes sociais, ilustrando como relacionamentos reais muitas vezes apresentam versões idealizadas da vida amorosa na internet.
Entre aquilo que mostramos ao mundo e aquilo que vivemos na intimidade de uma relação, quase sempre existe uma história muito maior. Elídio Almeida, psicólogo em Salvador, especialista em terapia de casal e relacionamentos.

Quando passamos a acreditar na própria propaganda

A reflexão proposta pela música da cantora Urias ganha profundidade justamente nesse ponto. O problema não está apenas nas fantasias que criamos ou divulgamos. A questão surge quando começamos a acreditar nesses mitos e passamos a tomar uma pequena fração da realidade como se ela representasse o todo.

No caso do Brasil, essa dinâmica parece relativamente fácil de perceber. Embora a maioria das pessoas conheça os desafios presentes no cotidiano do país, muitos ainda alimentam a expectativa de viver naquele Brasil permanentemente alegre, acolhedor e despreocupado. Trata-se do país que costuma aparecer nos cartões-postais, nas campanhas publicitárias, nas novelas cariocas e em parte daquilo que exportamos culturalmente para o restante do mundo.

Nos relacionamentos amorosos, entretanto, esse fenômeno costuma passar mais despercebido. Afinal, a internet nos apresenta diariamente casais felizes, viagens memoráveis, demonstrações públicas de afeto, pedidos de casamento emocionantes e inúmeras narrativas sobre uma vida a dois aparentemente perfeita.

Além disso, uma verdadeira indústria de conteúdos vende a idea do amor através de fórmulas simples e regras supostamente infalíveis. Desse modo, arquétipos, energias, testes e modelos prometem garantir relações bem-sucedidas. As próprias linguagens do amor, tema já discutido em outros textos aqui no site, frequentemente se transformam em receitas simplificadas que prometem explicar fenômenos muito mais complexos.

Com o tempo, portanto, muitas pessoas deixam de enxergar esses conteúdos como recortes ou interpretações da realidade. Em vez disso, passam a utilizá-los como referência para avaliar a própria vida.

É nesse momento que a fantasia deixa de funcionar apenas como entretenimento ou inspiração e assume o papel de parâmetro para julgar aquilo que se vive na prática. Como consequência, relacionamentos reais passam a parecer insuficientes não porque necessariamente estejam ruins, mas porque muitas pessoas os comparam a modelos de amor idealizados que raramente sobrevivem ao encontro com a vida cotidiana.

Casal brasileiro sentado no mesmo ambiente após uma selfie para as redes sociais, demonstrando distância emocional e os bastidores dos relacionamentos reais.
Uma publicação pode registrar um momento verdadeiro. O problema começa quando passamos a acreditar que aquele momento representa a história inteira. Elídio Almeida, psicólogo em Salvador, especialista em terapia de casal e relacionamentos.

O preço de comparar relacionamentos reais com fantasias

Na minha experiência clínica, observo que boa parte do sofrimento amoroso não nasce apenas dos problemas existentes na relação. Muitas vezes, ele surge da comparação entre aquilo que a pessoa vive e aquilo que acredita que deveria viver.

Quando alguém toma a fantasia como referência, qualquer experiência humana tende a parecer decepcionante. Afinal, relacionamentos reais incluem divergências, desencontros, frustrações, limitações e períodos difíceis. Casais discordam. Pessoas se decepcionam. Expectativas nem sempre se confirmam. Nada disso indica, necessariamente, que exista algo errado com a relação. Frequentemente, indica apenas que duas pessoas reais estão tentando construir uma vida em comum.

Entretanto, o consumo constante de modelos idealizados de amor dificulta o reconhecimento dessa realidade. Características normais da vida conjugal passam a ser interpretadas como sinais de fracasso. Um desacordo se transforma em incompatibilidade. Uma fase difícil passa a representar falta de amor. Um conflito cotidiano se converte em evidência de que o relacionamento não deveria existir.

Como consequência, surgem sentimentos de frustração, inadequação e insuficiência. Em muitos casos, o sofrimento não decorre apenas daquilo que acontece dentro da relação. Ele também nasce da distância entre os relacionamentos reais e os modelos idealizados que a internet e o mercado dos relacionamentos vendem diariamente.

Não por acaso, vejo com frequência pessoas frustradas não porque vivem relações necessariamente ruins, mas porque esperam experiências incompatíveis com a realidade humana. Aos poucos, vídeos virais, conteúdos produzidos para gerar engajamento e casais transformados em vitrine ocupam o lugar da experiência concreta. E quando a fantasia se torna a régua de comparação, a realidade quase sempre parece insuficiente.

A vida começa quando abandonamos a vitrine e construímos relacionamentos reais

Uma das principais contribuições da mensagem presente na música da cantora Urias é nos lembrar que existe uma diferença importante entre aquilo que idealizamos e aquilo que vivemos. Mais do que isso, ela nos convida a refletir sobre o risco de confundir uma representação idealizada da realidade com a própria realidade.

Os relacionamentos mais sólidos que conheço, ao longo de toda a minha trajetória como psicólogo e terapeuta de casais, não são aqueles que parecem perfeitos quando observados de fora. Pelo contrário. Geralmente são relações construídas por pessoas que aprenderam a lidar com imperfeições, diferenças, dificuldades e limitações sem transformar esses elementos em provas de fracasso. Muitas, inclusive, se beneficiaram da terapia de casal ou da terapia individual para desenvolver recursos que lhes permitiram atravessar momentos difíceis de forma mais saudável.

Contudo, aparar as arestas de um namoro ou casamento não significa abrir mão de expectativas saudáveis nem aceitar relações marcadas por sofrimento, violência ou desrespeito. Significa apenas reconhecer que relacionamentos reais não se sustentam em fantasias. Eles se desenvolvem através de conversas difíceis, acordos possíveis, crescimento mútuo e da capacidade de construir intimidade mesmo quando a realidade não corresponde às idealizações.

A realidade não cabe em uma vitrine

A vida começa justamente quando deixamos de acreditar apenas nas versões idealizadas que criamos sobre nós mesmos, sobre o país em que vivemos e sobre as pessoas que amamos. Porque tanto o Brasil real quanto os relacionamentos reais existem muito além das versões idealizadas que costumamos vender e consumir.

É justamente por isso que a música de Urias provoca uma reflexão tão interessante. Ela nos lembra que nem toda fantasia é necessariamente uma mentira. Algumas fantasias nascem de fragmentos da realidade. O problema surge quando passamos a acreditar que esses fragmentos representam a experiência completa.

Afinal, existe um Brasil bonito, acolhedor e alegre. Assim como existem relacionamentos felizes, amorosos e profundamente satisfatórios. Entretanto, nenhum país cabe em um cartão-postal. Nenhum relacionamento cabe em uma publicação nas redes sociais.

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