Como tenho discutido ao longo desta série de textos sobre as populares linguagens do amor, propostas por Gary Chapman, muitas delas podem ser úteis e fazem sentido para a maioria dos relacionamentos. O problema não costuma estar na teoria em si, mas na forma como algumas pessoas utilizam essas ideias de maneira enviesada, equivocada ou até mesmo para justificar comportamentos que prejudicam a relação. Neste texto, gostaria de refletir sobre as palavras de afirmação, uma das linguagens do amor mais conhecidas e valorizadas atualmente.

As palavras de afirmação ocupam um lugar de destaque entre as linguagens do amor porque permitem expressar carinho, admiração, reconhecimento e afeto de forma explícita. Afinal, quem não gosta de ouvir que é amado, desejado, admirado ou importante para alguém? Em muitos relacionamentos, elogios, demonstrações verbais de carinho, declarações de amor e palavras de incentivo ajudam a fortalecer vínculos, aumentar a sensação de proximidade emocional e construir intimidade entre duas pessoas.

Por essa razão, não tenho dificuldade alguma em reconhecer a importância das palavras de afirmação. Na minha experiência como psicólogo e terapeuta de casais, observo que muitos relacionamentos se beneficiam quando os parceiros conseguem expressar verbalmente seus sentimentos, necessidades e afetos de maneira clara. Em alguns momentos, ouvir um simples “eu te amo”, “você é importante para mim” ou “tenho orgulho de você” produz efeitos profundamente positivos.

Entretanto, existe um aspecto pouco discutido sobre essa linguagem do amor. O problema não surge quando alguém utiliza palavras de afirmação para demonstrar carinho. O problema começa quando essas palavras passam a ocupar um espaço tão grande que dificultam enxergar comportamentos que apontam em outra direção.

É justamente sobre isso que gostaria de refletir contigo neste texto.

Palavras de afirmação em relacionamento amoroso. Mulher observa comportamento inadequado do parceiro enquanto ele interage com conteúdo de outras mulheres. Reflexão sobre coerência entre palavras, atitudes e relacionamentos saudáveis.
Palavras de amor podem fortalecer uma relação, mas não substituem atitudes coerentes com aquilo que é dito. — Elídio Almeida, psicólogo em Salvador, especialista em terapia de casal e relacionamentos

O valor das palavras de afirmação

As palavras de afirmação ocupam um lugar importante nos relacionamentos porque ajudam a tornar visíveis sentimentos que, de outra forma, poderiam permanecer silenciosos. Elas acolhem, fortalecem, encorajam, aproximam e ajudam a construir segurança emocional. Acima de tudo, constituem um dos principais meios pelos quais as pessoas expressam aquilo que pensam, sentem e desejam comunicar ao parceiro.

Muitas vezes, alguém ama, admira, respeita ou valoriza a pessoa com quem se relaciona, mas a ausência de expressão verbal dificulta que esse afeto seja percebido. Não por acaso, muitas pessoas se sentem especialmente amadas quando recebem elogios, reconhecimento ou demonstrações verbais de carinho.

Por isso, quando utilizadas de forma sincera, as palavras de afirmação podem fortalecer vínculos, favorecer a intimidade e criar um ambiente emocional mais seguro para o casal. No entanto, expressar sentimentos e emoções por meio das palavras nem sempre é uma tarefa fácil. Ainda assim, os relacionamentos costumam se beneficiar quando os parceiros conseguem comunicar admiração, carinho e reconhecimento de forma mais clara.

Justamente por carregarem tanto valor emocional, as palavras de afirmação também exercem uma forte influência sobre a forma como interpretamos os relacionamentos. E é exatamente nesse ponto que a reflexão se torna mais complexa. Afinal, se as palavras possuem o poder de aproximar pessoas, também podem interferir na maneira como avaliamos determinados comportamentos. Compreender essa diferença é fundamental para entender não apenas o potencial das palavras de afirmação, mas também os riscos que surgem quando passamos a atribuir mais valor ao que é dito do que àquilo que efetivamente acontece na relação.

As palavras de afirmação e o efeito confundidor

Na pesquisa científica, chamamos de efeito confundidor uma situação em que determinado elemento interfere na interpretação da realidade e dificulta compreender aquilo que realmente está acontecendo. Durante minha pesquisa de mestrado, por exemplo, procurei avaliar os impactos do tratamento do ronco na satisfação com o relacionamento conjugal e na qualidade de vida dos casais. Para que os resultados pudessem ser interpretados com segurança, o estudo considerou apenas participantes que não realizavam outros tratamentos para o sono ao mesmo tempo. Caso contrário, seria impossível saber se as mudanças observadas decorreram do tratamento do ronco ou da influência de outro fator.

Embora o conceito tenha surgido no campo da pesquisa científica, ele também ajuda a compreender alguns fenômenos presentes nos relacionamentos amorosos. Nesse contexto, o efeito confundidor oferece uma boa lente para refletirmos sobre a forma como as palavras de afirmação podem interferir na interpretação e na condução de situações vividas dentro da relação.

Imagine, por exemplo, uma pessoa que frequentemente desrespeita o parceiro, faz críticas agressivas, controla comportamentos, produz humilhações ou adota atitudes manipuladoras. Após cada episódio, entretanto, essa mesma pessoa faz declarações emocionantes de amor, promete mudanças, pede desculpas e reafirma o quanto o parceiro é importante.

Naturalmente, essas palavras não apagam aquilo que aconteceu. Entretanto, elas podem dificultar a avaliação da situação. Consequentemente, aos poucos, o foco deixa de estar nos comportamentos que produzem sofrimento dentro da relação e passa a se concentrar nas palavras de afirmação. É justamente aí que surge o efeito confundidor.

Palavras de afirmação e relacionamento amoroso. Homem faz gesto de coração para a parceira após comportamento inadequado. Reflexão sobre coerência entre declarações de amor, atitudes e relacionamentos saudáveis.
Nem toda declaração de amor revela aquilo que acontece na relação. Por isso, palavras e atitudes precisam caminhar juntas. — Elídio Almeida, psicólogo em Salvador, especialista em terapia de casal e relacionamentos

Quando as palavras de afirmação escondem problemas reais

Na prática clínica, observo que muitas pessoas permanecem durante anos em relações profundamente desgastantes porque encontram dificuldade para compreender como experiências tão contraditórias podem coexistir na mesma relação. Isso acontece porque essas relações costumam transmitir sinais conflitantes que confundem a percepção da relação e, muitas vezes, os próprios sentimentos envolvidos. Por exemplo, de um lado, a pessoa convive com atitudes que produzem dor e angústia. De outro, escuta declarações constantes de amor, admiração, arrependimento e promessas de mudança.

Na prática, isso aparece em falas como:

“Ele me trata mal, mas diz que me ama.”

“Ela me humilha quando está nervosa, mas depois pede desculpas e diz que sou a pessoa mais importante da vida dela.”

“Ele controla tudo o que faço, mas diz que faz isso porque me ama.”

Há palavras de afirmação nesses casos? Sim. Contudo, o uso dessa linguagem do amor não está a serviço de expressar um sentimento, mas de mascarar, justificar ou suavizar comportamentos inadequados que ocorrem dentro da relação. Perceba que o problema não está nas palavras de afirmação em si. A questão está na utilização dessa linguagem para minimizar ou encobrir comportamentos que prejudicam o relacionamento.

Não por acaso, esse fenômeno se aproxima de muitas situações de abuso psicológico, manipulação emocional e violência. Embora seja particularmente preocupante nesses contextos, ele também aparece em situações menos extremas. Afinal, algumas pessoas recorrem repetidamente a declarações de amor para minimizar os efeitos de promessas não cumpridas, negligência emocional, irresponsabilidade afetiva ou comportamentos que prejudicam a relação.

Nessas situações, as palavras de afirmação funcionam como uma espécie de anestesia emocional temporária. Elas aliviam a dor do conflito, reduzem a tensão do momento e alimentam a esperança de que tudo mudará. Entretanto, quando não são acompanhadas por mudanças concretas de comportamento, acabam apenas prolongando dinâmicas que continuam produzindo sofrimento.

Nenhuma declaração substitui uma atitude

Ao longo dos anos trabalhando como psicólogo no cuidado dos relacionamentos amorosos, aprendi que algumas das perguntas mais importantes que podemos fazer sobre qualquer relacionamento são bastante simples:

As atitudes confirmam aquilo que está sendo dito?

O que essa pessoa faz contribui para resolver os problemas da relação ou apenas para administrá-los temporariamente?

As declarações de amor são acompanhadas por comportamentos coerentes com aquilo que está sendo prometido?

Essas perguntas ajudam a compreender por que algumas relações se fortalecem enquanto outras permanecem presas aos mesmos conflitos durante anos. Elas também ajudam a diferenciar as palavras de afirmação que são demonstrações genuínas de afeto de tentativas de minimizar, justificar ou suavizar comportamentos que continuam produzindo sofrimento. Não por acaso, utilizo esse raciocínio tanto no trabalho clínico quanto nas reflexões que proponho aos casais que acompanho.

Claro que as palavras de afirmação devem ser vistas como meios legítimos para demonstrar amor, carinho, admiração e reconhecimento e devem estar presentes no repertório de todo relacionamento. Entretanto, elas não deveriam servir para esconder comportamentos que produzem sofrimento.

Talvez a principal reflexão que as palavras de afirmação possam nos oferecer esteja justamente aqui. Em vez de perguntar apenas o que alguém diz sentir por nós, também precisamos observar o que essa pessoa faz com esse sentimento dentro da relação. Afinal, o amor não se expressa apenas através de palavras e declarações. Ele também se revela na forma como lidamos com conflitos, assumimos responsabilidades, respeitamos limites e cuidamos do bem-estar de quem amamos.

As palavras de afirmação podem emocionar, acalmar e inspirar. Contudo, relacionamentos saudáveis dependem da coerência entre aquilo que é dito e aquilo que é vivido. Por isso, nenhuma declaração de amor deveria ter mais peso do que os comportamentos que a sustentam.

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