Durante as sessões de psicoterapia, costumo dar algumas “aulinhas de psicologia” aos meus pacientes. Nelas, comparo conhecimentos técnico-científicos com situações da vida cotidiana. Quando conversamos sobre assertividade, agressividade ou dificuldade para demonstrar dor e sofrimento, por exemplo, costumo recorrer a uma situação fictícia vivida numa emergência hospitalar.
Imagine que uma pessoa chegue ao hospital com febre e solicite atendimento. Depois da triagem, ela se senta e espera calmamente. Algumas horas depois, outra pessoa chega com sintomas semelhantes. Ao saber que também precisará aguardar, começa a reclamar, gritar, ameaçar chamar a imprensa e dizer que conhece pessoas influentes. Diante da confusão, um funcionário agiliza seu encaminhamento ao consultório médico.
Nesse exemplo, o atendimento acaba oferecendo uma consequência favorável ao comportamento agressivo: a pessoa que gritou conseguiu o que desejava mais rapidamente. Enquanto isso, aquela que aguardou em silêncio, mesmo insatisfeita, permaneceu esperando.
Isso não quer dizer que a agressividade seja uma forma adequada de buscar atendimento. A situação serve para refletirmos sobre como determinadas consequências podem fortalecer comportamentos. Quando uma ação produz o resultado esperado ou afasta um desconforto, aumenta a possibilidade de que ela volte a ocorrer em situações semelhantes.
O que acontece quando um comportamento “dá certo”?
Nem sempre escolhemos nossos comportamentos por meio de uma análise consciente. Muitas vezes, aprendemos a agir de determinada maneira porque, em experiências anteriores, aquela conduta produziu algum ganho, evitou uma consequência desagradável ou chamou a atenção de quem poderia nos ajudar.
Por isso, compreender o comportamento exige mais do que classificá-lo como certo ou errado. Precisamos observar o contexto em que ele ocorre, as consequências que produz e os motivos pelos quais pode voltar a se repetir.
Essa reflexão também envolve nossa capacidade de expressar sentimentos, emoções e sensações que somente nós podemos experimentar diretamente. Entre elas está a dor.

Minha experiência numa emergência hospitalar
Um dia desses, precisei ir à emergência de um hospital por causa de um mal-estar. Ao chegar à unidade, solicitei atendimento e fui encaminhado à triagem. Mesmo com algumas alterações físicas identificadas, recebi a orientação de retornar à recepção e aguardar.
Fiquei frustrado, obviamente, mas segui a orientação. Com o passar do tempo, percebi que outras pessoas recebiam atendimento antes de mim. Algumas demonstravam uma necessidade claramente mais urgente, como uma pessoa que chegou desacordada após uma síncope. Nesses casos, compreendi perfeitamente a prioridade.
Em determinado momento, chegou um casal que chamou minha atenção. A mulher falava ao telefone enquanto o homem parecia procurar o cartão do plano de saúde. Ele olhava frequentemente para o relógio e logo solicitou atendimento. Pouco depois, os dois seguiram para a triagem.
Enquanto caminhava, a mulher mudou a postura, apoiou-se no acompanhante e passou a andar mais lentamente. Para mim, era evidente que ela sentia algum desconforto. No entanto, tive a impressão de que tentava tornar sua condição mais visível naquele momento. Essa foi apenas a minha percepção da cena, pois eu não tinha acesso à avaliação clínica, ao histórico nem à gravidade do quadro apresentado.
Pouco tempo depois, ela recebeu atendimento médico. Como eu continuava sentindo dor e aguardando, comecei a pensar sobre a maneira como cada pessoa comunica sua necessidade.
Falhamos ao demonstrar dor e sofrimento?
Observei que muitos pacientes presentes na recepção apresentavam posturas semelhantes: permaneciam cabisbaixos, movimentavam-se lentamente, faziam expressões de dor ou buscavam apoio nos acompanhantes. Então, fiz uma autoanálise e percebi que talvez eu não tivesse conseguido comunicar com clareza a intensidade do meu mal-estar.
Isso não significa que eu deveria chorar, gritar, exagerar os sintomas ou representar um sofrimento diferente daquele que sentia. A questão era outra: talvez eu não tivesse descrito de maneira suficientemente objetiva a intensidade da dor, sua evolução e as limitações que ela estava provocando.
A classificação de risco deve considerar a queixa apresentada, os sinais, os sintomas, as condições clínicas e o potencial de agravamento. Portanto, a aparência não deveria determinar sozinha a prioridade. Ainda assim, os profissionais precisam das informações fornecidas pelo paciente para compreender aquilo que não conseguem observar diretamente.
Quando finalmente fui atendido, o médico realizou a anamnese e a avaliação inicial. Logo depois, fui encaminhado a uma sala, onde outros três médicos também me examinaram. Enquanto isso, a equipe providenciou acesso venoso e iniciou os procedimentos necessários.
Passei o dia no hospital, fiz uma bateria de exames e, depois que identificaram a causa do mal-estar, recebi medicação, permaneci em observação e fui liberado. Desde então, estou muito bem! =D
Dor, pensamentos e sentimentos são eventos privados
Essa experiência me trouxe alguns insights. O primeiro foi perceber, na prática, como as consequências interferem em nossos comportamentos. Quando uma ação produz um resultado favorável, ela pode aumentar a probabilidade de repetirmos aquela conduta no futuro, mesmo que não tenhamos consciência dessa aprendizagem.
Nesse sentido, podemos dizer cotidianamente que não nos comportamos sem que exista algum tipo de ganho. Entretanto, esse ganho não precisa ser planejado nem conscientemente reconhecido. Ele pode consistir em receber atenção, escapar de uma espera, reduzir um desconforto ou conseguir acesso a algo importante.
O segundo insight está relacionado à compreensão dos eventos privados na análise do comportamento. Pensamentos, sentimentos, emoções e sensações, como a própria dor, acontecem de maneira diretamente acessível apenas à pessoa que os experimenta.
Cantar, caminhar e conversar são comportamentos que outras pessoas conseguem observar. Por isso, são frequentemente descritos como comportamentos públicos ou abertos. Já pensar, sentir medo ou experimentar dor são eventos privados, pois os demais não conseguem observá-los diretamente.
Isso não torna a dor menos verdadeira. Significa apenas que precisamos comunicá-la por meio de palavras, expressões, gestos e descrições que ajudem outras pessoas a compreender aquilo que está acontecendo conosco, assim como expliquei no texto “Isso é psicológico?”.
Como demonstrar dor e sofrimento com clareza?
Uma pessoa pode estar sofrendo intensamente e, mesmo assim, permanecer calma. Outra pode sentir uma dor menos intensa, mas demonstrar seu desconforto de forma mais expressiva. Portanto, não devemos utilizar somente a aparência para determinar quanto alguém sofre.
Ao demonstrar dor e sofrimento, procure descrever o que está sentindo, quando o sintoma começou, se houve piora e o quanto ele interfere em suas atividades. Também é importante informar a presença de outros sintomas, os medicamentos utilizados e qualquer mudança significativa no quadro.
Dizer “estou com muita dor” oferece uma informação importante, mas ainda genérica. Uma descrição como “a dor começou há duas horas, está aumentando e agora não consigo permanecer em pé” ajuda o profissional a compreender melhor a evolução e os efeitos do sintoma.
A assertividade consiste justamente em comunicar necessidades, pensamentos e sentimentos com clareza, sem agressividade e sem apagar a própria experiência. Isso pode ajudar tanto em situações de atendimento médico quanto nas relações familiares, profissionais e afetivas.
Demonstrar dor e sofrimento nos relacionamentos
A dificuldade de demonstrar o que sentimos também provoca conflitos nos relacionamentos amorosos. Muitas pessoas esperam que o parceiro chore, se desespere ou apresente sinais visíveis para acreditarem que ele está realmente sofrendo. Quando isso não acontece, podem concluir que a situação não tem importância.
Na minha experiência clínica com casais, percebo que algumas pessoas conseguem descrever acontecimentos, mas têm dificuldade para comunicar o efeito emocional que eles provocaram. Alguém pode dizer que ficou “chateado” após uma discussão, quando, na verdade, sentiu medo de perder a relação, rejeição ou uma profunda sensação de abandono.
Enquanto uma pessoa espera que seu sofrimento seja percebido, a outra interpreta o silêncio como indiferença. Assim, o casal passa a discutir sobre a forma da reação e deixa de conversar sobre aquilo que realmente provocou a dor.
A terapia de casal pode ajudar os parceiros a reconhecer essas diferenças e construir formas mais claras de comunicação. Afinal, demonstrar sentimentos não significa aumentar o sofrimento para convencer alguém, mas encontrar maneiras de tornar compreensível uma experiência que o outro não consegue acessar diretamente.
Comportamentos públicos e privados
Outro insight está relacionado aos meus estudos sobre alexitimia e sobre os comportamentos agressivo, inassertivo e assertivo. Podemos observar essas formas de comportamento em todos os ambientes onde existem interações humanas. Por isso, compreendê-las pode favorecer relações mais satisfatórias.
Uma comparação que costumo fazer durante os atendimentos consiste em pensar nos comportamentos públicos como a copa de uma árvore. Eles são visíveis e podem ser observados por quem está ao redor. Já os eventos privados se parecem com as raízes: não estão diretamente disponíveis aos nossos olhos, embora participem do funcionamento daquela árvore.
Por meio da psicoterapia comportamental, muitas pessoas conseguem compreender melhor suas ações, seus pensamentos, seus sentimentos e as relações entre esses eventos. Esse processo de autoconhecimento também favorece maior autonomia nas relações consigo mesmas e com as outras pessoas.
Fazer o certo ou fazer o que dá certo?
Compreender o comportamento humano não é uma tarefa simples. Muitas vezes, adotamos aquilo que parece mais prático e não percebemos que as consequências de nossas ações podem fortalecer justamente os comportamentos que consideramos inadequados.
Se alguém consegue atendimento mais rápido depois de gritar e ameaçar, por exemplo, esse resultado pode favorecer a repetição da agressividade. Da mesma forma, quando uma pessoa só recebe cuidado depois de intensificar dramaticamente sua expressão, ela pode aprender que comunicar o sofrimento com tranquilidade não funciona.
Isso cria uma armadilha: o ambiente passa a valorizar aquilo que “dá certo”, ainda que esse comportamento prejudique outras pessoas ou dificulte uma convivência respeitosa.
A saída não consiste em esconder a dor nem em exagerá-la. Precisamos aprender a demonstrar dor e sofrimento com clareza, reconhecer nossas necessidades e comunicá-las de maneira assertiva. Também devemos ampliar nossa capacidade de escutar aquilo que os outros dizem, mesmo quando o sofrimento deles não aparece da forma que esperamos.
Quanto mais compreendemos nossos comportamentos e suas consequências, maior se torna nossa possibilidade de agir conscientemente. Assim, podemos fazer não apenas aquilo que produz um resultado imediato, mas também aquilo que respeita nossos valores, nossos direitos e as pessoas com quem convivemos. Pense nisso!






