Dia desses, me deparei com a imagem abaixo circulando pelas redes sociais. A partir disso, passei a observar com mais atenção um comportamento bastante comum no trânsito das grandes cidades: o egocentrismo

Mais do que uma simples infração, aquela cena revela algo maior. Ela aponta para um padrão comportamental bastante presente na nossa sociedade: o egocentrismo.

Enfrentar o trânsito, hoje, não é tarefa simples. O tempo gasto em engarrafamentos impacta diretamente a rotina, reduz o tempo com a família, limita momentos de descanso e interfere até na produtividade. Diante disso, a sensação que muitas pessoas têm é de estar sempre atrasadas — e, mais do que isso, de que sua urgência é maior do que a dos outros.

O que está por trás desse comportamento?

Ao observar situações como a da imagem, é possível imaginar o tempo de espera de quem segue corretamente a fila. Ao mesmo tempo, também é fácil perceber o incômodo gerado quando alguém simplesmente decide “levar vantagem”.

Embora a maioria das pessoas reconheça que o correto seria respeitar as regras, o que se observa, na prática, é um movimento crescente de desrespeito.

Diante disso, surge uma pergunta importante: por que alguém age dessa forma, mesmo sabendo que está errado?

As respostas podem ser diversas. Em alguns casos, pode haver uma sensação real de urgência. Em outros, porém, o que se observa é uma crença egocêntrica: a ideia de que cada pessoa pode criar suas próprias regras para atender às próprias necessidades.

Ilustração de carros no trânsito mostrando motorista furando fila e representando comportamento de egocentrismo
O comportamento individual pode até gerar vantagem imediata, mas cobra um preço coletivo.
Elídio Almeida, psicólogo em Salvador, especialista em terapia de casal e relacionamentos

Egocentrismo: quando o individual se sobrepõe ao coletivo

Agir de forma egocêntrica significa priorizar exclusivamente os próprios interesses, desejos e necessidades, muitas vezes sem considerar o impacto disso sobre os outros.

Nesse processo, a pessoa passa a operar dentro de uma lógica própria, ignorando a importância das regras sociais e das relações coletivas.

No entanto, ninguém nasce egocêntrico. Esse comportamento se fortalece ao longo do tempo, especialmente quando produz resultados que parecem positivos.

No trânsito, isso fica evidente. Quando alguém fura a fila, utiliza vias indevidas ou desrespeita regras, geralmente obtém uma recompensa imediata: chega mais rápido ao destino.

E é justamente esse resultado que reforça o comportamento.

Por que esse padrão se repete tanto?

Do ponto de vista comportamental, quando uma ação gera um benefício imediato, ela tende a se repetir.

Além disso, a falta de fiscalização e, muitas vezes, a conivência dos próprios motoristas contribuem para que esse padrão se mantenha. Em outras palavras, o ambiente acaba favorecendo a continuidade desse comportamento.

Com o tempo, cria-se um ciclo: quanto mais pessoas adotam esse tipo de atitude, mais o trânsito se torna caótico — e mais justificativas surgem para continuar agindo da mesma forma.

Egocentrismo e os relacionamentos amorosos

Esse padrão não se restringe ao trânsito, ele também está presente nos relacionamentos amorosos. Ao longo dos atendimentos, observo que o egocentrismo também aparece com frequência nas relações interpessoais e, de forma bastante significativa, nos relacionamentos amorosos.

Quando uma pessoa passa a priorizar constantemente apenas suas próprias necessidades, a tendência é que surjam conflitos, rupturas na comunicação e dificuldades na construção de acordos.

Em terapia de casal, por exemplo, esse tipo de dinâmica aparece quando um dos parceiros (ou ambos) insiste em manter vantagens individuais, mesmo que isso prejudique o equilíbrio da relação.

O preço invisível das “vantagens”

Embora o comportamento egocêntrico possa trazer ganhos imediatos, ele costuma gerar prejuízos a médio e longo prazo.

No trânsito, isso se traduz em mais desorganização, mais estresse e maior risco. Nas relações, o resultado pode ser o desgaste, a perda de conexão e o aumento dos conflitos.

Além disso, há um efeito coletivo importante: quando todos passam a buscar apenas seus próprios interesses, o ambiente como um todo se deteriora.

É possível agir diferente? Acredito que sim.

Para isso, é necessário desenvolver uma consciência maior sobre o impacto das nossas ações — não apenas para nós mesmos, mas também para as pessoas ao nosso redor.

Somos seres sociais. Portanto, nossas escolhas não acontecem no vazio. Elas afetam o ambiente, as relações e a qualidade de vida de todos.

Ser egocêntrico pode até parecer vantajoso no curto prazo. No entanto, a longo prazo, o custo tende a ser alto.

Talvez esteja na hora de repensarmos nossos comportamentos. Caso contrário, continuaremos obtendo os mesmos resultados — cada vez mais agravados.

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2 Comentários

  • Renato disse:

    Muito bom, eu particularmente sempre que estou em um engarrafamento indo a praia onde se tem aquelas vias de somente duas faixas e acostamento, sempre posiciono meu carro no acostamento para não deixar os espertoes furarem a fila, chega a ser engraçado como as pessoas atras do meu carro no acostamento ficam com raiva, como se estivessem certas que suas ações não trazem problema algum.

    • Olá Renato!
      Obrigado pelo contato. Realmente, muitas pessoas procuram levar vantagem em tudo, ainda que para isso estejam infringindo uma série de regras, acreditando que estão agindo adequadamente.Talvez os condutores devessem pensar mais na coletividade e praticar mais o respeito às pessoas e às normas de trânsito.

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