Todos nós queremos, em alguma medida, causar uma boa impressão. Desejamos ser queridos, reconhecidos e aceitos pelas pessoas que consideramos importantes. Esse desejo faz parte das relações humanas e, por si só, não representa um problema. A dificuldade começa quando a necessidade de aprovação passa a determinar nossas escolhas e nos leva a fazer coisas que contrariam nossos desejos, valores ou até os próprios limites.

Anos atrás, escrevi sobre esse tema depois de assistir a uma reportagem que mostrava jovens adotando comportamentos arriscados para acompanhar uma moda e conseguir aceitação dentro do grupo. O exemplo chamava atenção, mas o fenômeno está muito longe de pertencer apenas à adolescência. Adultos também gastam o que não podem,modificam a aparência, escondem opiniões, toleram situações desconfortáveis e permanecem em relações que lhes fazem mal simplesmente porque temem aquilo que poderá acontecer se deixarem de corresponder às expectativas dos outros.

Quando a necessidade de aprovação começa a controlar nossas escolhas?

A opinião das outras pessoas influencia nossos comportamentos desde muito cedo. Aprendemos, por exemplo, quais atitudes recebem elogios, quais provocam críticas e quais aumentam nossas chances de pertencer a determinado grupo. Além disso, a convivência depende de alguma capacidade de adaptação. Seria muito difícil estabelecer relações se cada pessoa ignorasse completamente os sentimentos, as necessidades e as expectativas de quem está ao redor.

Entretanto, adaptar-se é diferente de viver em função da aprovação. Quando agradar se transforma numa condição para que alguém se sinta valorizado, qualquer possibilidade de rejeição pode adquirir um peso enorme. Por isso, algumas pessoas começam a monitorar constantemente aquilo que dizem, vestem, publicam ou fazem. Aos poucos, a pergunta deixa de ser “isso faz sentido para mim?” e passa a ser “o que vão pensar de mim?”.

As redes sociais ampliaram ainda mais essa possibilidade de comparação. Hoje, curtidas, comentários, visualizações e seguidores oferecem indicadores públicos de reconhecimento. No entanto, o problema não está simplesmente em publicar uma fotografia bonita, gostar de receber elogios ou cuidar da própria aparência. A questão é compreender quanto daquilo que fazemos corresponde aos nossos desejos e quanto fazemos apenas para produzir determinada impressão.

Essa distinção pode parecer pequena, mas muda bastante a experiência. Uma pessoa pode comprar uma roupa porque gosta dela; outra pode comprar exatamente a mesma roupa porque acredita que precisa dela para ser aceita. O comportamento exterior é semelhante. Porém, aquilo que sustenta cada escolha é completamente diferente.

O desejo de ser aceito também interfere nos relacionamentos

Talvez seja nos relacionamentos que algumas consequências da necessidade de aprovação fiquem ainda mais difíceis de perceber. Afinal, quando gostamos de alguém, é natural fazermos concessões, negociarmos diferenças e modificarmos alguns comportamentos para favorecer a convivência. Nenhuma relação saudável funciona apenas segundo as vontades individuais de cada pessoa.

Por outro lado, concessão não significa anulação. Há pessoas que evitam expressar opiniões para não desagradar o parceiro, aceitam comportamentos que lhes causam sofrimento, abandonam amizades, modificam a aparência ou deixam de estabelecer limites porque temem perder a relação. Inicialmente, essas escolhas podem parecer demonstrações de amor. Com o tempo, entretanto, podem produzir ressentimento, insegurança e a sensação de que é preciso representar determinado papel para continuar sendo amado.

É justamente nesse contexto que uma pergunta merece reflexão: quanto de você precisa desaparecer para que determinada relação continue existindo? Se alguém acredita que discordar significa correr o risco de ser abandonado, provavelmente terá mais dificuldade para dizer “não”, comunicar uma insatisfação ou defender uma necessidade. Consequentemente, problemas que poderiam ser discutidos acabam se acumulando e podem reaparecer posteriormente de outras maneiras.

Além disso, o mesmo fenômeno ocorre fora das relações amorosas. No trabalho, na família ou entre amigos, o medo da rejeição pode fazer uma pessoa aceitar responsabilidades excessivas, silenciar diante de situações injustas ou tentar corresponder permanentemente às expectativas alheias. Portanto, o preço da aprovação pode se tornar muito alto quando exige que alguém deixe de reconhecer os próprios limites.

Homem em retrato ilustrando a relação entre aparência, necessidade de aprovação e aceitação social.
A busca por aceitação pode influenciar a relação que construímos com a própria aparência.
Elídio Almeida, psicólogo em Salvador, especialista em terapia de casal e relacionamentos.

Como diminuir a necessidade de aprovação dos outros?

Não precisamos caminhar para o extremo oposto e defender que a opinião das outras pessoas nunca deve importar. Ela importa. Somos seres sociais e construímos parte da nossa percepção sobre nós mesmos por meio das relações que estabelecemos. Entretanto, amadurecer também envolve aprender a avaliar quais opiniões merecem espaço em nossas decisões e até onde estamos dispostos a mudar para atendê-las.

Por isso, vale observar algumas escolhas aparentemente simples. Você deixa de dizer alguma coisa por educação ou por medo de rejeição? Muda de opinião depois de refletir ou simplesmente porque alguém desaprovou aquilo que você pensa? Faz determinada compra porque deseja aquele objeto ou porque acredita que ele comunicará algo sobre você? Permanece numa relação porque ainda quer construí-la ou porque teme aquilo que os outros pensarão caso ela termine?

Essas perguntas não oferecem respostas prontas. Ainda assim, ajudam a perceber a função que a aprovação exerce em nossas escolhas. Quanto mais conseguimos identificar esse processo, maior se torna a possibilidade de escolher conscientemente quando vale a pena ceder, negociar, mudar ou simplesmente sustentar aquilo que pensamos.

Nesse sentido, desenvolver autoconfiança não significa tornar-se indiferente aos outros. Significa conseguir ouvir opiniões sem transformar cada crítica numa ameaça ao próprio valor. Da mesma forma, estabelecer limites não significa deixar de amar ou de se importar. Muitas vezes, justamente porque uma relação é importante, precisamos conseguir existir dentro dela sem representar permanentemente aquilo que imaginamos que o outro espera encontrar.

Ser aceito não deveria exigir que você deixasse de ser você

Talvez o problema nunca tenha sido querer causar boa impressão. Em diferentes momentos da vida, todos nós desejamos reconhecimento, pertencimento e afeto. Entretanto, quando a necessidade de aprovação ocupa espaço demais, podemos começar a organizar nossa vida em torno daquilo que acreditamos que os outros querem ver.

Por isso, vale recuperar uma pergunta que estava no texto que escrevi anos atrás: qual é o seu “fio colorido”? Na época, a expressão fazia referência a uma moda específica entre adolescentes. Hoje, ela pode representar qualquer comportamento que adotamos principalmente para conseguir pertencimento, status ou reconhecimento.

Para algumas pessoas, esse “fio” pode estar na aparência. Para outras, no consumo, no trabalho, nas redes sociais ou até nos relacionamentos. O objeto muda, assim como muda o contexto. Porém, a pergunta continua atual: o que você tem feito apenas para ser aceito?

Buscar aprovação é humano. Precisar dela para reconhecer o próprio valor, entretanto, pode nos afastar justamente da pessoa cuja aceitação também precisamos aprender a construir: nós mesmos.

Compartilhe sua opinião!

Quer conversar mais sobre este assunto?

Clique no botão abaixo e deixe seu comentário. Sua opinião é importante e pode ajudar outras pessoas com suas ideias e experiências!

Deixe seu comentário

Siga seu psicólogo no Instagram

Deixe uma resposta