Por que as pessoas mentem? Essa é uma pergunta comum; e que diz muito sobre o comportamento humano. Ontem, depois que saí do consultório, fui ao supermercado. Enquanto esperava minha vez de ser atendido no caixa, comecei a procurar algo para “ocupar a mente”. Resolvi dar uma olhada nas funcionalidades de um dos celulares que uso e descobri uma, no mínimo, inusitada. Como a proposta deste post é discutir as razões que levam as pessoas a mentir, vou deixar para falar sobre essa descoberta mais à frente. Antes, vamos tentar entender o que é e como ocorre a mentira.

Casal em que uma pessoa beija uma máscara enquanto a outra revela um rosto escondido, representando mentira nos relacionamentos e comportamento de engano
“Muitos relacionamentos são construídos e vivem em constante mentira.”
Elídio Almeida, psicólogo em Salvador, terapia de casal e relacionamentos

Por que as pessoas mentem: o que é a mentira?

Se alguém perguntar-lhe o que é mentira, certamente você irá responder algo como “dar uma informação falsa a alguém” ou “afirmar que algo falso é verdadeiro”. Porém, isso não responde — e tampouco explica — o que leva alguém a mentir.

Para compreender melhor essa questão, precisamos encontrar uma definição relacional, ou seja, que leve em consideração o contexto no qual a pessoa produziu a mentira e as consequências que esse comportamento gerou.

Uma boa ferramenta para isso é a análise do comportamento verbal. Por comportamento verbal, entendemos todo comportamento de um indivíduo que produz efeitos em outro, antes mesmo de modificar diretamente o ambiente.

Por exemplo, alguém que está sentindo calor pode pedir a outra pessoa que ligue o ar-condicionado, ao invés de fazer isso por conta própria. Nesse caso, o comportamento verbal atuou sobre o outro, produzindo uma mudança no ambiente.

Quando alguém emite uma descrição ou afirmação, o outro pode utilizá-la para orientar seu próprio comportamento. Observa-se, então, que aquilo que dizemos influencia diretamente as ações de outras pessoas. E, com essa intenção de produzir efeitos no outro, pode ocorrer tanto a emissão de verdades quanto de mentiras.

As pessoas podem emitir tanto verdades quanto mentiras

Falar a verdade ou contar uma mentira são comportamentos verbais que aprendemos e mantemos de acordo com os efeitos que produzem.

Ou seja, quando alguém obtém benefícios ao mentir, esse comportamento tende a se fortalecer. Se, ao longo do tempo, mentir continua trazendo vantagens, a pessoa passa a manter e incorporar essa prática ao seu repertório comportamental.

Por outro lado, o comportamento de mentir também pode se manter por afastar ou adiar consequências desagradáveis.

Por exemplo, o estudante que falta à aula por não ter estudado para a prova ou a criança que finge estar doente para não ir à escola. Ainda que isso traga prejuízos futuros, o alívio imediato pode aumentar a probabilidade de esse comportamento se repetir em situações semelhantes.

Aprendendo a mentir: o papel da infância

Você saberia dizer quando e por que aprendeu a mentir?

Normalmente, esse aprendizado ocorre na infância. Crianças mentem com frequência para seus pais, especialmente quando são punidas ao dizer a verdade sobre algo considerado errado.

Dessa forma, elas podem aprender a mentir para conseguir brincar com alguém que não é aprovado pela família, ou para afirmar que fizeram a tarefa de casa e, assim, poder assistir ao desenho favorito.

Se um pai pune o filho que diz a verdade, é importante observar que, embora a punição tenha sido direcionada ao comportamento considerado inadequado, ela acaba recaindo também sobre o ato de dizer a verdade.

E, diante disso, vale a reflexão: se você fosse punido por dizer a verdade, continuaria sendo honesto nas próximas situações?

Por que as pessoas mentem: vantagens e evitamento de punições

Sendo assim, podemos concluir que as pessoas mentem porque aprenderam a evitar punições ou a obter vantagens com esse comportamento.

Além disso, as pessoas tendem a mentir com mais frequência em contextos nos quais se sentem julgadas, criticadas ou ameaçadas.

Ou seja, o ambiente exerce um papel fundamental na manutenção desse comportamento.

Para que uma mentira ocorra, não basta apenas a intenção. É necessário que existam condições para que ela seja elaborada e emitida.

E é exatamente nesse ponto que o contexto ganha força.

Homem com nariz alongado simbolizando mentira, associado ao comportamento de enganar e às consequências sociais da desonestidade
“A mentira pode até funcionar no curto prazo, mas cobra seu preço nas relações.”
Elídio Almeida, psicólogo em Salvador, terapia de casal e relacionamentos

Mentiras, tecnologia e novas possibilidades

Na fila do supermercado, ao acessar o menu principal do celular, me deparei com uma lista de ferramentas — e, no topo, estava escrito: “chamada falsa”.

Curioso, resolvi entender como aquilo funcionava. Ao acessar a função, encontrei opções como ativar ou desativar a ferramenta, definir o horário da ligação e até inserir o nome e o número de quem supostamente estaria ligando.

Perplexo, ativei a função, programei um intervalo de um minuto e inseri um nome qualquer. Pouco depois, recebi uma ligação exatamente como havia configurado.

Ou seja, eu poderia dizer — e até mostrar — que qualquer pessoa estava me ligando.

Naquele momento, ficou claro como o contexto e as ferramentas disponíveis podem facilitar a emissão de mentiras.

Não apenas aprendemos a mentir ao longo da vida, como também passamos a contar com recursos que ampliam essa possibilidade.

Por que as pessoas mentem: uma reflexão final

Confesso que fiquei intrigado ao pensar qual seria o propósito de uma ferramenta como essa.

O que uma pessoa mal-intencionada poderia fazer com esse recurso? Quantas situações poderiam ser manipuladas a partir disso?

Entãio, por que as pessoas mentem?

Porque aprendem que mentir pode trazer vantagens, evitar punições e, muitas vezes, porque vivem em contextos que favorecem e até estimulam esse comportamento. Afinal, vivemos em uma sociedade que, por vezes, reforça práticas inadequadas sem considerar os impactos que elas geram — tanto no indivíduo quanto na coletividade.

Compartilhe sua opinião!

Quer conversar mais sobre este assunto?

Clique no botão abaixo e deixe seu comentário. Sua opinião é importante e pode ajudar outras pessoas com suas ideias e experiências!

Deixe seu comentário

Siga seu psicólogo no Instagram

49 Comentários

  • josé disse:

    Excelente texto. Parabéns.

  • Paulo Pinheiro. disse:

    Muito bom o que dissertou. O que me atraiu foi a sua observância em relação às “ferramentes e condições” que são necessárias para a criação de uma mentira.

  • Fábio disse:

    Preciso de um celular assim. rss
    Anunciar previamente a história do celular que você contou no fim do post seria um autoclítico interessante não pudéssemos mover a barra de rolagem. rss
    Mas eu li tudo e gostei do que li. Ficou bem acessível para quem não é da área. Tão didático quanto se espera de um analista do comportamento.
    Parabéns pelo blog, Elídio.
    Abraços,
    Fábio.

  • eduardo c matos disse:

    ei ,,me empreste este celular ai,quando o (monstrinho) tiver me enchendo atendo p telefone e saio correndo,gostei muito dessa materia,vou conversar mais com minhas filhas sobre este assunto,um abraço

  • Juciléa Lopes disse:

    Muito boa a matéria.
    Mais uma vez registro meus sinceros PARABÉNS!

  • Ivan Brafman disse:

    Mais uma vezes, Elídio, tenho que parabenizá-lo, por sua habilidade na hora de apresentar seus oportunos e brilhantes temas para discussão.
    O assunto em tela é muito interessante. Muitos de nós, somos agentes ativos e outros passivos dos efeitos do ato de mentir.
    Entendo que tudo começa mesmo do hábito de se dizer aquilo que não é real e verdadeiro.E isso cria raízes dentro do íntimo de quem usa este recurso e não importa se existe um motivo grave ou não. A mentira será verbalizada de um forma muito espontânea: sempre!.
    Acredito que o ato de mentir reflita o resultado de auto-estima (baíxíssima), insegurança, medo e personalidade inerte, diante da exposição do cotidiano. Assim como uma fuga.
    Abraços. Ivan

    • Olá Ivan. Eu quem agradeço e fico feliz que tenha gostado. Excelente você destacar que como a mentira hoje é algo espontâneo e você está corretíssimo na caracterização de quem faz uso constante deste artifício.
      Abraços, sempre enriquecedoras suas opiniões!

  • drika disse:

    Excelente artigo! Surpreendente a observaçao de minucias do cotidiano!

    • marialva ribeiro tolentino disse:

      meu marido esta sempre mentindo nao cnsigo entender pois ele ja tem 50 anos estou estudando o assunto.

  • Olá Drika, obrigado!

  • Roberto de Mendes disse:

    Ola Elidio Parabens , muito boa sua materia.
    Quero dizer que tambem ja tive este questionamento porque alguem precisaria de uma ferramenta desta, mais fico tristem em dizer que ‘e um reflexo do comportamento humano, se fizeram alguem solicitou, inclusive os tecnicos precisaram deste artificio p/ comecar a pensar no projeto.
    Infelizmente estamos cercados por pessoas que mentem ja vi pessoas que criaram uma teia tao grande de mentiras que chegou um momento, que ninguem sabia qual era a verdade.
    Com relacao as criancas e punicao etc , fico me questionando como obter a verdade sem perder a direcao de passar valores, educar??
    Ja li tambem que (sobre pequenas mentiras) o super sinsero (aquela serie da TV) se existisse seria uma pessoa renegada as relacoes, pois como a gente pode dizer que a pessoa nao esta bonita (por exemplo) sem magoa-la ??
    Abrco Roberto de Mendes

    • Olá Roberto Mendes!
      Obrigado pelo comentário.
      Você tem razão em relação a preocupação com o processo educativo e em como falar sempre a verdade pode trazer consequências desagradáveis às relações. Podemos pensar em pelo menos duas questões relacionadas a estas dificuldades: a primeira diz respeito a como não sabemos falar a verdade sem ser agressivo; segundo, da dificuldade que temos em compreender que beleza, por exemplo, é algo extremamente relativo e por isso a opiniões poderão ser sempre distintas; a demais, parece que estamos sempre evitando causar algum tipo de frustração às pessoas e por isso não experimentamos formas mais assertivas de comunicar nossas opiniões.
      Forte abraço e sua visita e seus comentários serão sempre bem vindos!

  • ana maria disse:

    Parabéns pela clareza da explicação

  • Olá Ana Maria, Obrigado!

  • Fabíola Lima disse:

    Muito bom e coerente! Pretendo usar o artigo para me desculpar e justificar com um amigo, para quem menti, “para evitar um ‘mal maior’ ” (mas, fui descoberta e achei que seria melhor eu ter dito a verdade). Já usei a “chamada falsa”, para encerrar um encontro com uma pessoa chata, sem magoá-la. Gostaria de parabenizá-lo, mais uma vez, pelo escrito!

  • Ana Carolina Cerdeira disse:

    Adorei a matéria!!! Exatamente o que eu estava procurando…vou compartilhar na minha página do Facebook, ok?!!!
    Parabéns!!!

  • Adriana Silva disse:

    muito boa a explicação,agora sei pq meu namorado mente tanto,principalmente a um assunto expecífico com medo da punição.

  • Separado recente disse:

    A matéria me esclareceu o porque mas como curar isso em uma pessoa que criou uma serie de mentiras para justificar erros da vida. Terapia ela não aceita. Qual seria um argumento para ela buscar ajuda?

    • Olá!
      Obrigado pelo comentário!
      Não seria o caso de, antes mesmo de esperar uma mudança das outras pessoas, iniciar uma mudança em nós mesmos? Talvez o primeiro passo para que as pessoas parem de mentir é ser verdadeiro com elas e não entrar na vibe da mentira! O que você acha?

      • Olá!
        Você têm razão, muitas vezes quando confrontamos a pessoa que mente com a realidade ela pode se engajar em comportamentos de autodefesa e o resultado pode não ser agradável. Conviver com a mentira também não é bom e por isso devemos recorrer às investidas estratégicas para obter os melhores resultados. Fico feliz que a terapia esteja sendo uma alternativa esperançosa, mas não perca de vista seus propósitos e quem sabe assim você também pode ajuda-la a enfrentar esta etapa. Forte abraço e obrigado pelo comentário.

  • Simone disse:

    Desculpe-me pela violência com que relato, mas a mentira é o início para a quebra de confiança, de credibilidade, de relação(seja fraternal, amorosa, amizade), e quem mente está propondo enganar alguém também para ser beneficiado em algo. Talvez a verdade pode causar uma dor num a primeiro momento, mas certamente ela irá libertar de todo sentimento de culpa.

  • Separado recente disse:

    o quer dizer com a vibe seria nao aceitar a mentira e desmascarala no ato, isso gera uma autodefesa com uma arrogancia e se enche de razão.
    Convivi com isso 5 anos e ela saiu da relação mas continua mentindo. A minha esperança é que começou um tratamento psicologico e espero que sinceramente mude.

  • Texto inteligente e esclarecedor, parabéns!!!!

  • Obrigado Clarice, é uma satisfação contribuir!

  • monica disse:

    Uau! Que pilantra esse inventor, ele pensa que todos os consumidores são iguais a ele…

  • excelente! gostei muito do texto. parabéns!

  • Olá Gianni!
    Obrigado pelo comentário!

  • Daniele disse:

    Ótimo, realmente não tinha essa visão da ocasião nos envolver…Parabéns , pelo artigo!

  • andreia disse:

    ola eu menti varias vezes ao meu marido ,ele agora diz que nao confia mais em mim ,eu amo muito e ele diz que me ama e diz que so ainda esta comigo porque me ama e por causa do nosso filho mas que nao famos fazer vida de casados o que devo fazer eu nao o quero perder ?

  • Olá Andréia!
    Uma alternativa seria você tentar reconquistar essa confiança que foi perdida. Uma dica para isso seria evidencias os aprendizados obtidos e as mudanças que você implementou.

  • Samara disse:

    Olá
    é di´ficil saber lidar com a mentira, eu sempre fui a favor de aceitar o que a pessoa me diz, e se ela estiver mentindo problema é dela, mas agora que minha enteada de 6 anos veio morar conosco(já tem um ano) e vejo que ela mente por qualquer coisa, apesar de eu conversar bastante com ela, usar o “cantinho da disciplina” e não bater. Fico preocupada porque não sei lidar com isso e não posso negligenciar essa educação, você tem alguma idéia do que posso fazer ou algum livro que possa me ajudar?
    Obrigada desde já e parabéns pela qualidade do texto!
    Samara

    • Samara disse:

      Obrigada Elidio, lerei o texto e mais uma vez parabens!

  • Josefa Artilano disse:

    Parabéns Elídio ,achei interessante o texto.E até imagino que descobri porque o telefone da minha aluna chama e ela sai para atender tão rápido ,penso isto porque ela não está afim de assistir aula,talvez esteja utilizando esta função,chamada falsa.Esse texto me dispertou.Valeu vou procurar orientá-la.

    • Olá Josefa, obrigado pelo comentário.
      De fato, algumas pessoas utilizam de artifícios como a mentira para fugir ou esquivar-se de situações desagradáveis. Talvez uma conversa franca e não punitiva poderá despertar novas possibilidades para mudança de comportamentos e compreensão melhor da questão por parte de todos os envolvidos.
      Sucesso!

  • Norma Soares disse:

    Gostei demais! enviei ao meu companheiro pois uma tristeza imensa me dá quando ele, que tanto confio, me mente por bobagens! Ele me feriria menos com a Verdade! Obg. Vou repassar para ele.

    • Olá Norma!
      Obrigado pela visita e pelo comentário. Espero que ele possa refletir sobre o tema e quem sabe mudar os comportamentos. Podendo ajudar em algo não hesitem em me contactar, estarei à disposição.

      • Norma Sião disse:

        Obrigada por sua atenção!
        Abs
        Enviado via iPad

  • Debora Sampaio disse:

    caro colega, estava em busca de respostas para a mentira seu artigo me levou a algumas conclusões, portanto sendo muito útil e apropriado , porém , não responde: E quando mentir nunca ajudou a resolver o problema, sempre foi pego, então,por que manter este comportamento?bj Débora

    • Olá Débora, obrigado pelo comentário.
      Quando falamos em ganhos com a prática da mentira, não necessariamente estamos considerando o sucesso/ganho da mentira o fato dele não ser descoberto. Será que não existe outros ganhos com tal comportamento? Normalmente fazemos descobertas fantásticas com uma observação mais sistêmica e com isso podemos cortar o mal pela raiz.

  • Olenka disse:

    “A mentira tem pernas curtas”…mas vou contar uma que nem pernas tinha:
    – Qdo adolescente, minha prima, de saída para a escola noturna, e de costas para a porta, contava-me como ia fazer para “matar” aula e encontrar-se comigo na lanchonete…Acontece que a mãe dela que tinha saído, voltou para pegar qualquer coisa e estava na porta, atrás dela, e me fazendo sinal para não falar nada, rs….
    Qdo ela acabou e virou-se para sair a mãe dela disse: – Essa mentira nem pernas tem, rs….Um abraço !

  • PEDRO disse:

    estranho o comportamento humano. pedi a um amigo meu para dizer sempre a verdade por pior que ela seja e contribuo por minha parte fazer o mesmo. descubro que a pessoa nao cumpriu com o combinado atraves de fotos e mensagens de outras pessoas. Agora estou com o pe atras.

  • Olá Pedro!
    Compreendo a situação. Não será esse momento, a partir destas descobertas, o momento de terem uma nova conversa sobre o combinado feito anteriormente?

Deixe uma resposta