O vício em celular tem afetado não apenas a rotina das pessoas, mas também a qualidade das relações sociais, afetivas e familiares. Cada vez mais, observo na prática clínica pessoas que se sentem emocionalmente sozinhas mesmo estando constantemente conectadas.

Existe uma cena muito comum atualmente: alguém encontra amigos, familiares ou o próprio parceiro, mas permanece mais atento ao celular do que à presença real de quem está ao lado. Em muitos casos, a pessoa oferece mais atenção a alguém nas redes sociais do que à companhia física que está diante dela.

Essa reflexão aparece de forma muito interessante em um vídeo da atriz e comediante norte-americana Charlene deGuzman, que mostra situações cotidianas nas quais as pessoas parecem incapazes de desgrudar do aparelho celular. O vídeo ilustra (abaixo) como momentos românticos, encontros sociais, viagens, shows e até comemorações acabam sendo atravessados pelo uso excessivo dos smartphones.

Além disso, o problema vai muito além do simples uso da tecnologia. Portanto, o excesso de conexão virtual frequentemente produz prejuízos importantes nas relações interpessoais e nas habilidades sociais.

O vício em celular e os prejuízos nas relações

Os smartphones trouxeram inúmeros benefícios para a vida moderna. Hoje, resolvemos problemas rapidamente, acessamos informações instantaneamente e conseguimos manter contato com pessoas em qualquer lugar do mundo.

No entanto, ao mesmo tempo, o uso excessivo do celular também tem produzido dificuldades emocionais, afetivas e sociais importantes.

Na experiência terapêutica, percebo que muitos casais enfrentam conflitos constantes relacionados à sensação de ausência emocional provocada pelo celular. Frequentemente, um dos parceiros sente que precisa competir com redes sociais, mensagens, vídeos ou aplicativos pela atenção do outro.

Além disso, algumas pessoas apresentam enorme dificuldade de permanecer presentes em interações reais sem recorrer constantemente ao aparelho. Isso acaba prejudicando conversas, intimidade emocional, escuta e qualidade dos vínculos.

Muitas vezes, o problema não está apenas no celular em si, mas na dificuldade de lidar com silêncio, presença, espera, frustração ou contato interpessoal mais profundo.

Meu namorado é viciado em celular

Essa é uma queixa cada vez mais frequente nos relacionamentos amorosos.

Muitas pessoas relatam sofrimento porque o parceiro permanece constantemente conectado ao aparelho, mesmo durante momentos íntimos, refeições, viagens ou conversas importantes.

Consequentemente, surge uma sensação de negligência emocional. A pessoa começa a sentir que não é prioridade na relação.

Na clínica dos relacionamentos, observo que o excesso de celular frequentemente reduz a qualidade da comunicação afetiva. Por isso, em muitos casos, o casal divide o mesmo espaço físico, mas vive emocionalmente distante.

Além disso, quando o celular passa a ocupar todos os momentos livres, diminuem também as oportunidades de convivência espontânea, troca emocional e construção de intimidade.

Com o tempo, pequenas desconexões cotidianas podem gerar afastamento emocional significativo.

Menina fazendo sinal negativo enquanto homem usa celular no sofá, ilustrando vício em celular e distanciamento emocional
O excesso de conexão virtual pode gerar distanciamento emocional nas relações reais. Isso está muito presente naquele que é viciado em celular.
Elídio Almeida, psicólogo em Salvador, especialista em terapia de casal e relacionamentos.

O déficit em habilidades sociais

O problema do vício em celular também se relaciona com algo maior: o déficit em habilidades sociais.

Nós, seres humanos, somos naturalmente sociais. Portanto, precisamos estabelecer vínculos, construir relações e desenvolver habilidades de convivência ao longo da vida.

As habilidades sociais funcionam como uma ponte entre o indivíduo e as pessoas ao seu redor. Quando essas habilidades estão fragilizadas, muitas relações passam a gerar frustração, isolamento, insegurança ou sofrimento emocional.

Ao longo dos atendimentos, percebo que muitas pessoas apresentam dificuldade de:

  • iniciar conversas;
  • sustentar interações sociais;
  • lidar com conflitos;
  • expressar sentimentos;
  • tolerar frustrações;
  • ouvir o outro;
  • manter presença emocional nas relações.

Em muitos casos, o celular acaba funcionando como uma espécie de fuga emocional diante dessas dificuldades.

Além disso, o ambiente virtual oferece recompensas rápidas: curtidas, notificações, mensagens e estímulos constantes. Isso torna o aparelho extremamente reforçador do ponto de vista comportamental.

Viciado em celular e o treinamento de habilidades sociais

Felizmente, habilidades sociais podem ser aprendidas e desenvolvidas.

Na prática clínica, o treinamento dessas habilidades frequentemente produz resultados muito positivos em casos de:

Muitas pessoas nunca aprenderam adequadamente determinadas formas de interação emocional. Por isso, o processo terapêutico pode ajudar no desenvolvimento de comportamentos mais saudáveis, assertivos e funcionais.

É importante lembrar que habilidade social não significa agradar todo mundo. Na verdade, envolve a capacidade de se expressar de maneira respeitosa, honesta e adequada ao contexto, preservando tanto os próprios limites quanto os das outras pessoas.

Tecnologia e relações sociais precisam de equilíbrio

O objetivo não é demonizar o celular, aquele que viciado em celular ou abandonar a tecnologia. Os smartphones fazem parte da nossa vida e oferecem inúmeras facilidades importantes.

No entanto, precisamos refletir sobre a maneira como utilizamos esses recursos e sobre o impacto que eles têm produzido em nossas relações.

Em muitos casos, o problema não está na tecnologia, mas na dificuldade de usá-la de forma equilibrada.

Por isso, talvez o grande desafio contemporâneo seja aprender a conviver harmonicamente com os benefícios do mundo digital sem perder uma das características mais importantes da experiência humana: a capacidade de construir relações reais, profundas e emocionalmente presentes.

Nem tão pouco, nem demais. O equilíbrio continua sendo fundamental.

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