Lupo x homossexuais voltou ao debate após a repercussão da campanha estrelada por Neymar. No post anterior, comentei sobre a possível ofensa ao público homossexual presente na peça publicitária. Em resposta, a empresa divulgou uma nota oficial na qual afirma não ter promovido qualquer tipo de preconceito ou discriminação.

Veja a íntegra da nota:

“A Lupo vem a público para esclarecer que em nenhum momento promoveu qualquer tipo de preconceito ao levar ao ar o comercial de televisão “Aparecimento”, estrelado pelo jogador Neymar e que divulga a nova coleção de cuecas da Lupo. Já na concepção do comercial, que está sendo veiculado no intervalo dos principais programas de televisão, o personagem alvo da polêmica não teve qualquer conotação homossexual.

A graça do comercial é exatamente essa: um sujeito fortão, heterossexual, procura uma cueca sexy para usar – subentende-se – com uma mulher. E a reação de Neymar é sair de cena. A ideia foi dar um tom brincalhão e brasileiro ao filme.
A Lupo reitera sua rejeição a qualquer tipo de preconceito e garante seu respeito a todos os consumidores de seus produtos, independentemente de classe social, nacionalidade, religião e orientação sexual. A empresa fabrica produtos para todos os públicos e não faria o menor sentido excluir qualquer público de suas lojas e muito menos denegrir a imagem dos homossexuais”.

Cantor Ricky Martin em retrato expressivo representando diversidade sexual no contexto de debate sobre homofobia e consumo
A diversidade não cabe em estereótipos; reconhecer isso é essencial para relações mais respeitosas.
Elídio Almeida, psicólogo em Salvador, especialista em terapia de casal e relacionamentos

Quando a justificativa revela mais do que a intenção

É lamentável que uma empresa da dimensão da Lupo apresente uma leitura tão limitada sobre o universo homossexual. Ao tentar se defender, a própria nota reforça pressupostos problemáticos — como a associação implícita entre masculinidade, heterossexualidade e determinadas características físicas ou comportamentais.

Além disso, cabe questionar: o que leva à conclusão de que o personagem utilizaria a cueca com uma mulher e não com outro homem? Por que a força física, a aparência ou o tom de voz seriam suficientes para definir a orientação sexual de alguém?

Esse tipo de associação não apenas simplifica a realidade, como também reforça estereótipos que sustentam o preconceito.

Estereótipos e exclusão simbólica

Ao observar a construção do comercial e, principalmente, a justificativa apresentada, torna-se evidente que a campanha não depende apenas do humor. Ela se apoia em uma lógica de exclusão simbólica, na qual determinados perfis são implicitamente aceitos, enquanto outros são rejeitados.

Essa dinâmica aparece de forma sutil, mas consistente: ao naturalizar a ideia de que certos comportamentos ou desejos não pertencem a determinados grupos, a comunicação delimita quem pode ou não ocupar aquele espaço.

E, ainda que isso não seja dito explicitamente, o efeito permanece.

Representatividade e realidade: um contraponto necessário

Quero aproveitar a oportunidade para apresentar à Lupo um exemplo que confronta diretamente esse tipo de estereótipo. O homem da imagem abaixo foge completamente da representação sugerida pela campanha e pela própria nota da empresa.

Ele é forte, seguro e não se encaixa na caricatura frequentemente atribuída aos homens homossexuais. Ainda assim, é gay.

A partir disso, surge uma questão simples: esse homem poderia entrar na loja e solicitar a mesma cueca apresentada no comercial? E, caso isso ocorresse, a reação da marca seria de acolhimento ou de afastamento?

O risco de “brincar” com o preconceito

Talvez a Lupo precise compreender que é justamente em tom “brincalhão” que muitas formas de preconceito se perpetuam. Piadas, insinuações e construções simbólicas aparentemente inofensivas frequentemente carregam conteúdos discriminatórios.

Ainda que esse tipo de abordagem seja comum em determinados contextos culturais, isso não diminui seus efeitos. Pelo contrário, pode torná-los ainda mais difíceis de identificar e questionar.

Além disso, ao assumir que a intenção era “brincar” com um tema tão sensível, a empresa reforça um problema maior: a banalização de questões que impactam diretamente a vida e a dignidade de muitas pessoas.

Impactos que vão além da campanha

Quando uma marca desse porte escolhe esse tipo de comunicação, seus efeitos ultrapassam o campo da publicidade. Ela contribui para reforçar padrões sociais, validar comportamentos e influenciar a forma como as pessoas percebem umas às outras.

Por isso, não se trata apenas de uma campanha isolada, mas de um posicionamento que merece atenção.

E, diante disso, o mais coerente é que continuemos atentos — não apenas a essa, mas a outras campanhas que, sob diferentes formas, possam reproduzir lógicas semelhantes.

Compartilhe sua opinião!

Quer conversar mais sobre este assunto?

Clique no botão abaixo e deixe seu comentário. Sua opinião é importante e pode ajudar outras pessoas com suas ideias e experiências!

Deixe seu comentário

Siga seu psicólogo no Instagram

Deixe uma resposta