Ultimamente, tem sido cada vez maior o número de jovens e adolescentes que têm apresentado um transtorno psicológico grave: a automutilação. Usualmente, a automutilação ocorre quando a pessoa agride o próprio corpo com arranhões, cortes ou outras intervenções sempre que sente tristeza, raiva, nervosismo ou vivencia algum trauma.
Estudos apontam que as meninas são as principais vítimas deste transtorno e, por isso, o tratamento deve ser iniciado o quanto antes, a fim de evitar consequências mais graves. Além disso, todos sabem que a adolescência é uma das fases mais complexas da vida, sobretudo por marcar a transição entre infância e vida adulta. Ao mesmo tempo, o adolescente precisa lidar com uma grande quantidade de demandas: estudos, relacionamentos, sexualidade, família, grupos sociais e expectativas diversas.
Nesse contexto, a personalidade começa a ganhar formas mais concretas. No entanto, é justamente nesse período que muitos jovens enfrentam conflitos emocionais intensos e, frequentemente, não sabem como lidar com eles. A dificuldade para expressar sentimentos é bastante comum nessa fase e, assim, muitos acabam tentando resolver suas dores da maneira que conseguem — o que, em alguns casos, inclui a autoagressão.

Automutilação: uma dura realidade
A automutilação pode se manifestar de diferentes formas. Entre os comportamentos mais comuns, estão:
- esmurrar-se;
- chicotear-se;
- morder-se;
- reabrir feridas;
- queimar-se;
- furar-se com objetos pontiagudos;
- ingerir substâncias nocivas;
- bater a cabeça;
- cortar a pele;
- arrancar cabelos;
- beliscar-se.
Além disso, há casos em que a pessoa recorre à ingestão excessiva de medicamentos ou produtos químicos. Ainda que muitas vezes não exista intenção suicida, esse comportamento aumenta significativamente o risco, podendo, inclusive, levar a consequências fatais de forma acidental.
Outro ponto importante é que os locais mais atingidos costumam ser braços, pernas e dorso — regiões de fácil acesso e que podem ser escondidas. Por isso, mudanças comportamentais, como o uso constante de roupas longas em situações inadequadas, devem servir como sinal de alerta para pais, familiares e professores.
Na clínica, observo com frequência que alterações no comportamento são indicadores importantes de que algo mudou no contexto da pessoa. Por isso, qualquer mudança deve ser observada com atenção, pois pode sinalizar sofrimento emocional significativo.
A mente de quem se automutila
Muitas pessoas que se automutilam relatam sentir alívio após a prática. À primeira vista, isso pode parecer difícil de compreender. No entanto, quando analisamos mais de perto, esse funcionamento começa a fazer sentido.
Imagine, por exemplo, uma pessoa que enfrenta uma dor emocional intensa — como o fim de um relacionamento, uma rejeição ou uma situação traumática. Diante disso, ela se depara com um sofrimento que não sabe nomear, organizar ou enfrentar. Nesse cenário, ao provocar dor física, ela passa a lidar com uma sensação que, paradoxalmente, parece mais controlável.
Em outras palavras, a dor física desloca o foco da dor emocional. Além disso, trata-se de uma experiência mais concreta, mais familiar e, muitas vezes, mais previsível. Assim, ainda que de forma momentânea, a pessoa sente que recupera algum tipo de controle.
Consequentemente, esse mecanismo pode gerar dois efeitos principais:
a dor física passa a ocupar o lugar central do sofrimento, reduzindo momentaneamente o impacto da dor emocional;
a dor física se apresenta como algo mais administrável, pois remete a experiências já vividas.
No entanto, esse alívio é temporário. Com o tempo, o comportamento tende a se repetir e pode se tornar um padrão. Na experiência clínica, é possível observar que a automutilação passa a funcionar como uma tentativa de regulação emocional, o que aumenta o risco de sua manutenção.
Além disso, fatores como baixa autoestima, dificuldade de expressão emocional e ambientes familiares ou sociais pouco acolhedores contribuem para o desenvolvimento desse comportamento. Não raramente, esses jovens também enfrentam dificuldades em seus relacionamentos, o que intensifica ainda mais o sentimento de isolamento.
Automutilação e seus impactos nos relacionamentos
Embora muitas vezes seja vivida de forma silenciosa, a automutilação não afeta apenas quem a pratica. Ela também impacta diretamente os relacionamentos.
Isso ocorre porque a dificuldade de expressar emoções, somada ao sofrimento interno, pode gerar afastamento, conflitos e incompreensão entre familiares, amigos e parceiros. Em alguns casos, o comportamento pode até ser interpretado como tentativa de manipulação, quando, na verdade, trata-se de um pedido de ajuda que não encontrou outra forma de se manifestar.
Por isso, compreender o que está por trás da automutilação é fundamental para construir relações mais empáticas e menos julgadoras. Afinal, o sofrimento emocional, quando não encontra espaço de escuta, tende a buscar outras formas de expressão.
Tratamento para automutilação
Atualmente, não existem medicamentos específicos para tratar a automutilação. Embora alguns fármacos possam ser utilizados em casos associados a outros transtornos, eles não atuam diretamente sobre a origem do problema.
Por outro lado, a psicoterapia tem se mostrado uma alternativa eficaz. Ao longo do processo terapêutico, a pessoa pode desenvolver habilidades para lidar com o estresse, regular emoções e encontrar novas formas de enfrentamento.
Além disso, o acompanhamento psicológico contribui para o fortalecimento da autoestima, melhora da comunicação emocional e construção de relações mais saudáveis. Em muitos casos, esse trabalho também envolve a família, especialmente quando se trata de adolescentes.
Na prática terapêutica, o objetivo não é apenas interromper o comportamento, mas compreender sua função e construir caminhos mais saudáveis para lidar com o sofrimento.







Ps auto mutiladores precisam ser internados? Sofro muito com isso me auto mutilo a mais de 1 ano e agora resolvi parar mas nao sei o que fazer. Nao tenho coragem de falar pra ninguém, so pra 2 amigas minhas.
Olá Mariana!
Não seria, necessariamente, caso para internação, mas certamente é um comportamento que precisa de ajuda, pois dificilmente você conseguiria enfrentá-lo sozinho. Não hesite em buscar ajuda.
Tenho 14 anos. No começo do ano passado aconteceram várias coisas (prefiro não falar por aqui) que me deixaram muito deprimida, muito pra baixo. Eu era uma pessoa muito alegre, com a autoestima “em cima”, eu era bem divertida, até essas coisas acontecerem. Do ano passado até hoje, tenho várias crises de choro, perdi muito peso, pois fico 2 ou 3 dias sem comer absolutamente nada, tenho mudanças de humor a todo momento: ora eu estou feliz, depois, do nada, eu fico triste ou com raiva e começo a chorar. Também tenho uma certa mania de as vezes começar a imaginar coisas que nunca vão acontecer, e quando me dou por conta, estou falando sozinha. Corto-me (automutilação) e uma vez já tentei me matar. Virei uma pessoa triste, deprimida, sozinha, que sempre guarda suas magoas e tristezas pra si mesma, nunca falo dos meus sentimentos pra ninguém, me abro com ninguém (dos meus atos de me cortar e tal) por medo de ser julgada. Não me corto para chamar atenção, mais para amenizar as dores psicológicas (e acabo criando uma dor “realística”)… Não sei mais o que fazer, gostaria de sair dessa, mais não consigo… Estaria eu com depressão (ou algum outro problema)? Por favor, me ajudem…
Olá!
Compreendo sua situação e penso que não deve ser fácil enfrentar tudo isso, principalmente driblando os julgamentos. Penso, também, que para o seu caso talvez seja melhor compreender o que tem te levado a estes comportamentos e suas consequências, pois certamente nesses pontos você encontrará respostas e possibilidades de ações muito mais significativas que um diagnostico ou rótulos para o que sente e vem acontecendo contigo. Se possível, eleja alguém de sua confiança para ajudar nesse processo e posso garantir que por mais chato que possa parecer, é sempre melhor lidar com essas questões quando não estamos sozinhos. Ah! Parabéns pela escrita, você demonstra muita habilidade na expressão através das palavras.
Elidio, muito boa as informações postadas. Estou trabalhando com uma paciente com comportamentos auto-mutiladores e observo as dificuldades que é auxiliar esta mocinha. Para dificultar a interação e atuação, a mesma ainda apresenta PC atenuada, mas que faz com que a mesma tenha mais e mais dificuldades em se exprimir… sempre procuro mais informações literárias, colegas que trabalham com a mesma demanda e encontrei suas informações. Muito pertinentes e bem informadas.
Abç
Olá Jussara!
Obrigado pelo incentivo e observações. Fico feliz que tenha ajudado de alguma forma e desejo sucesso no caso.
Forte abraço.
Oi .. Tenho 23 anos e me automutilo des dos 21.. Tinha conseguido ficar duas semanas sem por.. Mas fiz novamente 🙁
Me trato c psicologa e psiquiatra .. Tomo 4 Fluoxetinas de manhã e um Topiramato a noite .. Tenho compulsão alimentar Tbm .. E minha psicologa acha q tenho transtorno bipolar!
Olá Naiara!
Compreendo sua situação. Fico feliz que esteja tenho o acompanhamento de uma psicóloga e espero que possa encontrar formas de lidar e driblar estas questões. Um abraço e obrigado pela participação.
Olá Maycon, obrigado pelo contato e comentário.
Então, faço atendimento on line também. Você pode agendar sua consulta pelos canais de contato aqui do site ou email: elidio@elididioalmeida.com Se preferir, há nesse período de pandemia diversos serviços de atendimento psicológico on line disponíveis na internet. Fique a vontade para eleger aquele que se adequar melhor par ti. Abraço.
OLÁ…excelente texto, muito esclarecedor. Sou psicologa em uma escola pública e atendendo uma aluna, 14anos,ela colocou que se automutila. Mora com os avós mas nos finais de semana vai para casa da mãe. SUGERI que chamassemos a mae para conversarmos sobre o assunto, ja que ninguém na família sabe, ela esconde as marcas com pulseiras e os cortes na perna com calças compridas. Ela ficou assustada com esta possibilidade e temo que ela se afaste, nao queira mais conversar comigo.Como é um espaço escolar minha ação é um pouco limitada mas não posso ignorar este problema.
Olá Mônica, obrigado pelo contato. De fato é uma situação delicada e entendo a complexidade da situação. Gostaria de entender melhor, a garota sabia e/ou concordou que vc procurasse a família dela?
Olá Elídio!
Inicialmente muito obrigada em responder.
Eu sugeri que ela pensasse nesta possibilidade e me procurasse depois da aula, ela não me procurou.
Uma amiga dela me procurou e disse que ela não quer que a mãe saiba.
Ela mora com os avós maternos; a mãe mora em outro município, próximo ao município que a aluna reside, com o marido que não é o pai da adolescente e a filha do marido.
Ela sente muita a falta da mãe, que me pareceu nunca ter assumido ela realmente como filha, quem exerce o papel da mãe é a avó.
Coloquei para ela, que conversar com a mãe sobre estas questões poderia aproxima-las.
Amanhã, ou melhor hoje estarei na escola e irei procurá-la, será o nosso segundo encontro.
Mais uma vez obrigada
Monica
Em 2 de setembro de 2015 13:21, Disqus escreveu:
Compreendo. Talvez seja o momento de você buscar uma supervisão para seus atendimentos. Ao que parece algumas coisas aconteceram rápido demais e a aluna pode não ter desenvolvido vínculo contigo e isso pode atrapalhar o processo.
Eu estou muito triste depois de uma discussão com duas meninas em um aplicativo e a única coisa que tenho vontade é de fumar pra aliviar meu sofrimento e tem horas que tenho pensamentos suicidas eu vou superar isso, mas está sendo muito difícil nada mais tem graça, parece que só a dor alivia meu sofrimento, eu só estava tentando fazer amizade e fui maltratado, minha vontade é de me machucar ou machucar alguém, além de tristeza estou sentindo um ódio muito grande, além de.fumar vou tentar fazer exercício até meus músculos doerem muito pra ver se me sinto melhor, boa sorte a todos