Diagnóstico de hiperatividade: estamos exagerando?

Ultimamente, tenho estado bastante preocupado com a quantidade de pessoas com “diagnóstico” de hiperatividade feitos, na maioria das vezes, por escolas, pais ou leigos no tema.

Basta a criança ou o adolescente sair do padrão esperado para que o problema seja rapidamente apontado: “esse menino tem um problema”. Assim, qualquer comportamento um pouco diferente já é suficiente para falar em hiperatividade, transtornos, doenças e remédios. E isso tem sido cada vez mais frequente.

Hiperatividade é coisa séria.

O que pouco se discute em toda essa questão são os interesses por trás de tantos rótulos e tantos medicamentos. As pessoas precisam ficar atentas, pois há muita coisa envolvida nessa onda de hiperatividade: médicos e instituições que mantêm pacientes por muitos anos; professores e pais que desejam crianças mais tranquilas, mesmo que isso ocorra à custa de medicação; e a própria indústria farmacêutica, interessada no crescimento desse mercado.

Em toda essa questão, muitos pais se perguntam: “Se meu filho é hiperativo, não é melhor dar um remedinho?”

Até pode ser, mas o uso de medicação deve ocorrer apenas quando realmente necessário. Para isso, é fundamental um diagnóstico criterioso.

Não por acaso, muitos se perguntam: qual a diferença entre adolescentes agitados e adolescentes com TDAH — Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade? Como essas conclusões são feitas?

Vamos tentar entender melhor essas questões.

Pessoa colocando diversos comprimidos na boca representando uso excessivo de medicamentos para hiperatividade e TDAH
O uso indiscriminado de medicamentos pode mascarar sintomas sem resolver a origem do problema.
Elídio Almeida, psicólogo em Salvador, especialista em terapia de casal e relacionamentos

O TDAH é realmente o problema?

Há algum tempo, TDAH era apenas uma sigla. Com a popularização das informações, especialmente pela internet, passou a ser amplamente utilizada — muitas vezes de forma equivocada — como uma espécie de rótulo rápido.

Isso é extremamente preocupante, pois tem gerado uma série de consequências negativas na vida de muitas pessoas, principalmente pela medicalização indevida.

A situação se torna ainda mais delicada diante de discussões sobre a flexibilização dos critérios diagnósticos. Ou seja, pelo andar da carruagem, cada vez mais pessoas poderão ser classificadas como portadoras de hiperatividade.

Vivemos em uma época em que, ao menor sinal de dificuldade, é raro encontrar pessoas assumindo suas responsabilidades. Em muitos casos, observo com preocupação quando professores identificam alunos com ritmos diferentes e rapidamente concluem que há um problema que precisa ser medicado.

E, com isso, qualquer comportamento passa a justificar intervenção: tristeza, falta de energia, excesso de energia, timidez

A questão é simples: se existisse uma medicação que resolvesse o problema de forma definitiva, tudo estaria solucionado. Mas não é o que acontece. Em muitos casos, o medicamento atua como um paliativo, reduzindo ou mascarando comportamentos por um período, sem tratar a causa.

Prova disso é que muitas pessoas permanecem por anos utilizando medicação para controle comportamental, sem resolução efetiva da questão. Isso sem considerar os efeitos colaterais e os riscos envolvidos.

Alguns profissionais chegam a afirmar que os medicamentos utilizados no tratamento do TDAH não apresentam efeitos colaterais. No entanto, é fundamental receber esse tipo de informação com senso crítico. Não existe medicação isenta de efeitos. Entre eles, destacam-se alterações de humor, insônia, perda de autonomia cognitiva, pensamentos intrusivos e outros efeitos que merecem atenção.

O que dizem as pesquisas sobre TDAH?

As pesquisas sobre hiperatividade e TDAH são relativamente recentes. Por isso, muitas pessoas não tiveram acesso a um acompanhamento adequado ao longo da vida.

Considerando que os estudos mais sistemáticos têm cerca de 30 anos, muitos adultos com características associadas ao transtorno nunca passaram por tratamento. Hoje, essas pessoas estão presentes em diferentes contextos sociais — escolas, universidades, empresas — e podem apresentar dificuldades relacionadas à organização, ao foco e à regulação emocional.

A ausência de acompanhamento adequado pode impactar diretamente a autoestima, a forma como a pessoa se percebe e suas relações sociais e afetivas.

Mas, afinal, o que tem sido feito para enfrentar esse problema?

O diagnóstico de TDAH não é simples. E isso se torna ainda mais preocupante quando observo dados que indicam o uso inadequado de medicação. Pesquisas mostram que uma parcela significativa dos medicamentos para hiperatividade pode ser prescrita sem um diagnóstico preciso.

Esse cenário levanta uma questão importante: qual é o papel dos adultos nesse processo?

Qual o papel dos pais nesse processo?

Os pais devem lembrar que conhecem seus filhos melhor do que qualquer professor ou profissional consultado pontualmente.

Há muitos interesses envolvidos em torno de diagnósticos, prescrições e tratamentos. Em muitos casos, percebo uma busca por soluções rápidas, como se o problema fosse simplesmente transferido.

Quando alguém afirma que uma criança não tem um comportamento “normal”, talvez seja importante devolver a pergunta: o que é ser normal? Em que critérios essa definição se baseia?

Quem convive com a hiperatividade sabe que não é simples lidar com as demandas do dia a dia. No entanto, soluções paliativas não resolvem o problema

Na minha prática clínica, observo que o mais adequado é desenvolver estratégias que favoreçam o domínio do próprio comportamento e a capacidade de adaptação aos diferentes contextos. Essa é uma habilidade que todos nós precisamos desenvolver ao longo da vida — e que nenhum medicamento é capaz de ensinar por si só.

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