No dia 8 de março, o programa Mosaico Baiano, da TV Bahia, afiliada da Rede Globo no estado, apresentou uma matéria sobre amor, ciúme nos relacionamentos afetivos e outros temas relacionados à convivência dos casais. Participei da matéria falando sobre alguns desses aspectos e sobre as dificuldades que podem surgir nas relações amorosas.
Na ocasião, conversei com o apresentador Alessandro Timbó, e a matéria também contou com a participação da cantora Alinne Rosa e depoimentos de outras pessoas. Entre os assuntos abordados, o ciúme merece atenção especial, justamente porque essa emoção pode assumir características muito diferentes dentro de um relacionamento.

Elídio Almeida, psicólogo em Salvador, especialista em terapia de casal e relacionamentos.
O ciúme nos relacionamentos é sempre um problema?
O ciúme envolve um conjunto de pensamentos, emoções e comportamentos que podem surgir quando uma pessoa percebe alguma ameaça a um relacionamento que considera importante. Nos relacionamentos amorosos, por exemplo, essa ameaça pode envolver o medo de perder o parceiro ou a parceira, a presença de um possível rival ou até situações que a pessoa interpreta como sinais de afastamento.
Entretanto, Sentir ciúme não significa, por si só, que exista um problema psicológico ou que a relação seja necessariamente prejudicial. Como outras emoções humanas, o ciúme também precisa de uma análise que considere o contexto, a intensidade e, principalmente, aquilo que a pessoa faz quando o sente.
Por isso, uma distinção importante está entre experimentar essa emoção e usar o ciúme como justificativa para controlar o outro. Verificar constantemente o celular, exigir senhas, determinar com quem o parceiro pode conversar, monitorar horários ou tentar restringir amizades não são demonstrações de amor. Ao contrário, quando esses comportamentos começam a fazer parte da rotina, podem comprometer a confiança, a liberdade e a qualidade da relação.
De modo geral, podemos observar três elementos frequentes nas situações de ciúme:
- uma ameaça real ou percebida à relação;
- a presença de um rival real ou imaginado;
- pensamentos, emoções ou comportamentos relacionados ao medo de perder aquela relação.
Ainda assim, cada situação apresenta características próprias. Afinal, duas pessoas podem sentir ciúme diante de acontecimentos semelhantes e reagir a essa emoção de maneiras completamente diferentes.
O que pode aumentar o ciúme em uma relação?
Muitas pessoas me perguntam o que causa o ciúme excessivo e os comportamentos que, em alguns casos, começam a prejudicar o relacionamento. Não existe uma única resposta para essa pergunta, porque diferentes fatores podem participar desse processo e cada pessoa constrói sua maneira de se relacionar a partir das próprias experiências.
Uma traição vivida em um relacionamento anterior, por exemplo, pode influenciar a forma como alguém interpreta determinadas situações numa relação atual. Entretanto, Ter vivido uma traição não significa que a pessoa necessariamente desenvolverá comportamentos de controle ou desconfiança. Por isso, precisamos compreender como ela vivenciou aquela experiência, quais aprendizados construiu a partir dela e de que maneira passou a interpretar as relações seguintes.
Além disso, insegurança, medo da rejeição, experiências anteriores, dificuldades de comunicação e conflitos na própria relação podem aumentar a frequência ou a intensidade do ciúme. Em alguns casos, inclusive, o casal entra num ciclo difícil: quanto mais uma pessoa tenta controlar para diminuir sua insegurança, mais a outra se sente invadida e se afasta. Consequentemente, esse afastamento pode aumentar ainda mais a insegurança que motivou o controle.
É justamente por isso que discutir apenas se alguém “tem ou não razão para sentir ciúme” pode ser insuficiente. Muitas vezes, precisamos compreender o que essa emoção sinaliza e, sobretudo, quais comportamentos surgem a partir dela.
Ciúme não precisa ser tratado como prova de amor
Muitas pessoas ainda associam o ciúme intenso a uma demonstração de amor. Entretanto, essa associação merece cuidado. Amor, compromisso e interesse pela relação não precisam encontrar expressão por meio de vigilância, proibições ou tentativas de controlar a vida da outra pessoa.
Quando o ciúme começa a produzir brigas frequentes, acusações, invasão de privacidade, sofrimento ou restrições à liberdade, vale olhar com mais atenção para aquilo que está acontecendo. Em alguns relacionamentos, uma conversa mais clara sobre inseguranças, limites e expectativas pode ajudar. Em outros, entretanto, os conflitos já se tornaram tão recorrentes que o casal encontra dificuldade para sair sozinho desse padrão.
A participação no Mosaico Baiano abriu justamente a possibilidade de conversar sobre questões como essas e levar ao público algumas reflexões sobre os relacionamentos afetivos. Afinal, compreender melhor o ciúme nos relacionamentos também significa aprender a diferenciar cuidado de controle, vínculo de posse e amor de comportamentos que podem comprometer a própria relação.






