Hoje, recebi a indicação de um amigo para assistir e avaliar um vídeo que vem fazendo muito sucesso na internet. Esse vídeo me estimulou a falar sobre preconceito aqui no blog.
Ao assistir ao material, não me chamou atenção apenas a performance em si. O que mais me impactou foi a forma como o jovem foi recebido e interpretado naquele contexto.
No vídeo, John Lennon da Silva enfrenta o preconceito, apresenta sua arte com humildade e espontaneidade e, ao mesmo tempo, nos oferece um grande aprendizado.
Esplendoroso! Desde já, meus parabéns, John Lennon da Silva!
Vamos, então, pensar um pouco sobre o que acabamos de assistir?
O que a história de John revela sobre o preconceito?
O jovem John Lennon da Silva, filho de uma beatlemaníaca, natural de Goiânia, mora em um bairro operário da zona leste paulistana, onde divide uma casa simples, de apenas três cômodos, com cinco parentes.
Além disso, John tem 21 anos e, nas horas vagas, integra o Amazing Break, grupo amador especializado em street dance (ou dança de rua). Ao observar sua trajetória, mais do que os dados objetivos, destaca-se o contraste entre sua origem e o julgamento imediato que sofreu.
Mesmo sem formação formal em dança, John releu a famosa obra “A morte do cisne” sob o viés do popping — estilo da street dance caracterizado por movimentos que, por vezes, lembram os de um robô e, em outros momentos, os das ondas.
Fã ardoroso de Fernando Pessoa, o garoto também aprecia Beethoven e Chopin.

Elídio Almeida, psicólogo em Salvador, especialista em terapia de casal e relacionamentos
Julgamento antes da performance: onde o preconceito aparece?
No vídeo, fruto do programa “Se Ela Dança, Eu Danço”, do SBT, o jovem enfrenta, logo no início, a ironia dos jurados pelo fato de possuir o mesmo nome do famoso Beatle.
Mais do que um comentário isolado, a cena evidencia um padrão de reação bastante comum: antes mesmo da apresentação, já existe um enquadramento prévio sobre quem ele é e até onde poderia chegar.
Como se isso não bastasse, o júri critica sua vestimenta e questiona: “qual é a ideia disso?”, referindo-se à sua roupa.
No entanto, de forma bastante assertiva, John deixa claro que a roupa deveria ser o menos importante naquela situação e que o foco deveria estar na dança — que, em tese, é a proposta do programa.
Além disso, em outro momento, os jurados questionam seu conhecimento sobre a versão original da obra, deixando implícita uma dúvida: alguém com aquele perfil seria capaz de executar algo daquele nível?
Ainda assim, sem se deixar abalar, John realiza uma excelente apresentação e arranca elogios que, ao menos em aparência, parecem espontâneos.
Preconceito velado: o que está por trás da reação?
Considero os elogios dos jurados pouco consistentes.
Logo após a apresentação, surgem perguntas como: “qual é a sua idade?” e “quem é o coreógrafo?”. Ou seja, mesmo diante do desempenho, permanece a suspeita de que ele não seria capaz de produzir aquilo sozinho.
Portanto, ainda que a postura dos jurados mude ao final, o preconceito inicial continua presente — apenas assume uma forma mais sutil.
O que parece ter sido elogiado não foi, necessariamente, a expressão cultural apresentada, mas aquilo que os jurados consideram aceitável dentro de seus próprios referenciais.
Com isso, deixam de reconhecer a riqueza de uma manifestação cultural que, como o próprio John aponta, é cotidiana e, muitas vezes, marginalizada.
O que o vídeo revela sobre a nossa sociedade?
O vídeo evidencia, de forma bastante clara, como muitos comportamentos sociais estão atravessados por preconceitos e discriminações — frequentemente disfarçados de reações aparentemente positivas.
De modo geral, tendemos a valorizar aquilo que consideramos belo dentro dos nossos próprios parâmetros, sem levar em conta o contexto, a história e as referências do outro.
Nesse sentido, vale uma reflexão importante: será que a mesma apresentação teria sido igualmente valorizada se fosse executada ao som de hip hop, funk ou rap?
Provavelmente, não.
E isso revela algo ainda mais profundo: não estamos julgando apenas a performance, mas tudo aquilo que está associado a ela — origem, estética, cultura e identidade.
Preconceito, agressividade e relações humanas
Como já discuti em outros textos, a ironia é uma forma de agressividade.
Ela ocorre quando alguém subestima o outro para, de maneira sutil, ridicularizá-lo ou diminuí-lo.
Além das falas, as expressões faciais e a postura dos jurados deixam evidente essa tentativa de desqualificação.
E o mais preocupante é que situações como essa não acontecem apenas na televisão. Pelo contrário, elas se repetem diariamente em diversos contextos: no trabalho, na escola, na família e, principalmente, nos relacionamentos.
Na prática clínica, observo com frequência como esse tipo de dinâmica afeta profundamente a autoestima, a comunicação e a qualidade das relações.
Isso acontece porque o preconceito, mesmo quando velado, tende a gerar insegurança, retraimento e, em muitos casos, sofrimento emocional significativo.
O papel da psicoterapia diante dessas situações
Assim como John conseguiu sustentar sua posição com segurança e clareza, muitas pessoas precisam desenvolver esse repertório ao longo da vida.
No entanto, nem todos conseguem fazer isso sozinhos.
Por isso, a psicoterapia — especialmente a terapia comportamental — pode ser um recurso importante para ajudar na construção de habilidades como assertividade, regulação emocional e enfrentamento de situações adversas.
Parabéns, John Lennon da Silva.
Parabéns pela espontaneidade, pelas habilidades e, sobretudo, pela forma como sustentou sua expressão mesmo diante de um cenário claramente desfavorável.
E talvez seja justamente aí que esteja o ponto mais importante dessa reflexão.
Porque, em diferentes contextos da vida, inclusive nos relacionamentos, muitas pessoas ainda são avaliadas antes mesmo de serem, de fato, conhecidas.
Quando isso acontece, o espaço para o diálogo diminui, o respeito se fragiliza e a relação deixa de ser um encontro entre pessoas para se tornar apenas a confirmação de expectativas já estabelecidas.
Por isso, mais do que reconhecer o talento de alguém como John, talvez seja necessário olhar com mais atenção para a forma como temos nos relacionado com o outro no dia a dia.
Porque o preconceito, muitas vezes, não está apenas nas grandes situações — ele aparece também nos pequenos julgamentos, nas ironias sutis e nas certezas rápidas que construímos sem perceber.
E, nesse sentido, rever essas posturas pode ser um passo importante para relações mais saudáveis, mais respeitosas e, sobretudo, mais humanas.







Excelente análise!
Obrigado!
Parabéns colega ! Tomara que os jurados desse programa tenham também lido a sua excelente análise. Talvez quem sabe lhes ajudem a refletir sobre suas posturas preconceituosas e ridículas.
De fato o que fizeram e fazem é muito desumano. Obrigado pelo comentário e pelo apoio.
nossa, vc ta atrasado hein?? rssrs. faz tempo isso aí, quase um ano. mas sua analise foi brilhante.
Olá Luciano!
Realmente faz um tempão! É que só tive acesso ao vídeo recentemente. Super atrasado! Rsrsrsrs!!! Que bom que curtiu a análise e obrigado pela visita e pelo comentário. Um abraço. 😀
Somos muito mais pré conceituosos do que imaginamos….Eu não debocharia para atingir o rapaz mas cá dentrinho de mim, também duvidei, também achei que ele faria algo ridiculo..Me emocionei, chorei logo que ele começou a “bater as asas”, sim, foi exatamente o que ele me fazia ver: “asas batendo em agonia”.
Eu não achava que eu tinha preconceitos mas sua excelente crítica me fez sentir vergonha de mim mesma. Obrigada por me melhorar mais um pouco. Estou “perseguindo” este artista no google, não podemos perder esta oportunidade de sentir estas emoções tão deliciosas.Um abraço, Dr.
Olá Olenka!
Obrigado pelo contato. Não há porque sentir vergonha. Que tal sentir-se orgulhosa por ter aprendido uma valiosa lição? 😉
Parabéns
Toda vez que vejo esse video me emociono!!!, o preconceito mostra a sua cara e não é velado…
Simplesmente…ele ouviu tudo……o tanto de lixo que esses jurados disseram…..e respondeu com seu talento……parabéns…vc é um exemplo de humildade e talento…..