Hoje gravei uma entrevista para o programa Bahia Motor, da TVE Bahia, falando sobre o medo de dirigir. O que parece uma atividade comum e até mesmo prazerosa para muitas pessoas pode representar uma experiência de intenso sofrimento para outras. Em alguns casos, apenas imaginar-se ao volante já provoca ansiedade, insegurança e pensamentos sobre tudo o que poderia dar errado. Por isso, o medo merece atenção, sobretudo quando começa a restringir a autonomia e a interferir na vida pessoal, profissional e familiar.
Durante a entrevista, conversei sobre as diferentes formas como esse problema pode aparecer e sobre a importância de compreender o que cada pessoa teme quando pensa em dirigir. Também expliquei que superar o medo de dirigir não depende apenas de força de vontade ou de ouvir frases como “é só pegar o carro e ir”. Quando a pessoa não se sente compreendida, essas cobranças podem aumentar a insegurança e reforçar a ideia de que ela não será capaz de enfrentar o trânsito. Foi justamente sobre essas questões que falei no programa de automobilismo da TVE Bahia.
Medo de dirigir: o que pode provocar esse problema?
O medo é uma emoção importante para nossa proteção, pois nos ajuda a identificar riscos e a agir com mais cuidado diante de situações potencialmente perigosas. Entretanto, quando sua intensidade se torna desproporcional ou leva a pessoa a evitar situações que poderia enfrentar, ele pode produzir limitações significativas. No caso da direção, algumas pessoas temem provocar um acidente, perder o controle do veículo, ferir alguém ou sofrer prejuízos físicos e materiais. Outras se preocupam com assaltos, discussões no trânsito, críticas de passageiros ou julgamentos de motoristas mais experientes.
Também existem pessoas que sentem medo das próprias reações emocionais. Elas receiam passar mal, ter uma crise de ansiedade, esquecer o que aprenderam ou não conseguir tomar uma decisão rápida diante de um imprevisto. Assim, o perigo imaginado nem sempre está apenas na rua, no veículo ou nos outros motoristas. Em muitos casos, a pessoa passa a desconfiar da própria capacidade de dirigir e começa a interpretar cada sinal de ansiedade como uma confirmação de que não deveria estar ao volante.

Elídio Almeida, psicólogo em Salvador, especialista em terapia de casal e relacionamentos.
O medo nem sempre começa depois de um trauma
Durante a entrevista, destaquei que o medo de dirigir não está necessariamente ligado a um acidente ou a outro trauma vivido no passado. Essas experiências podem desencadear o problema, mas não explicam todos os casos. Algumas pessoas nunca sofreram acidentes graves e, ainda assim, imaginam constantemente que poderão perder o controle, cometer um erro ou não conseguir reagir a tempo. Portanto, compreender o problema exige olhar para a história, os pensamentos, as emoções e as situações que despertam maior insegurança em cada pessoa.
Uma pessoa pode dirigir tranquilamente em ruas próximas de casa, mas evitar avenidas movimentadas, ladeiras, rodovias ou estacionamentos. Outra consegue conduzir o veículo quando está acompanhada, mas sente ansiedade intensa ao dirigir sozinha. Há também quem tenha carteira de habilitação há muitos anos e quase nunca tenha dirigido depois de concluir as aulas. Essas diferenças mostram que não existe uma única explicação nem uma solução igual para todos.
Em outro texto aqui no blog, já falei sobre a relação entre medo, ansiedade e fobia. No caso da direção, é importante avaliar a intensidade do sofrimento, as situações evitadas e as consequências para a rotina. Nem toda insegurança ao volante caracteriza uma fobia, mas o problema merece atenção quando a ansiedade se torna persistente e restringe escolhas importantes.
Quando evitar o volante fortalece o medo
Uma reação bastante comum diante do medo é evitar aquilo que provoca desconforto. A pessoa decide não dirigir naquele dia, escolhe um trajeto mais curto, pede ajuda a alguém ou deixa o carro na garagem. Imediatamente, sente alívio, pois não precisará enfrentar a situação temida. No entanto, quando essa estratégia se repete, o alívio pode fortalecer a esquiva e tornar cada nova tentativa ainda mais difícil.
Na minha prática clínica, observo que algumas pessoas habilitadas reorganizam toda a rotina para não dirigir. Elas dependem de familiares, utilizam outros meios de transporte mesmo quando possuem um veículo ou recusam oportunidades que exigiriam maior autonomia. Com o tempo, passam a acreditar que só estão seguras quando outra pessoa assume o volante. Dessa forma, o problema deixa de estar restrito ao trânsito e começa a interferir no trabalho, nos compromissos, no lazer e nas relações sociais.
Imagine alguém que dirige apenas quando o companheiro está sentado ao lado. Sempre que precisa sair sozinha, antecipa acidentes, sente o coração acelerar e pede que o parceiro conduza o veículo. Embora essa solução reduza a ansiedade naquele momento, ela também impede que a pessoa desenvolva novas experiências de segurança e confiança. Aos poucos, o medo de dirigir passa a organizar não apenas a rotina dela, mas também a vida do casal.
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Como o medo de dirigir afeta os relacionamentos?
Quando uma pessoa evita dirigir, outras pessoas frequentemente assumem seus deslocamentos. O companheiro pode passar a levá-la ao trabalho, às consultas, às compras e aos compromissos familiares. Inicialmente, essa ajuda pode ser compreendida como cuidado e parceria. Entretanto, quando se transforma numa obrigação permanente, pode provocar cansaço, dependência, cobranças e conflitos na relação.
Ao longo dos atendimentos, percebo que a dificuldade aumenta quando o parceiro interpreta o medo como preguiça, comodismo ou falta de esforço. Frases como “você tem carteira, então é só dirigir” ou “todo mundo consegue, menos você” não ajudam a pessoa a enfrentar o problema. Pelo contrário, podem produzir vergonha, culpa e sensação de incapacidade. Ao mesmo tempo, quem assume sozinho todos os deslocamentos pode se sentir sobrecarregado e pouco considerado em suas próprias necessidades.
O medo de dirigir também pode limitar viagens, atividades de lazer e decisões relacionadas aos filhos ou ao trabalho. Em algumas relações, o tema se transforma numa discussão recorrente: uma pessoa cobra autonomia, enquanto a outra pede compreensão e apoio. Quando o casal não consegue conversar sobre essas necessidades sem críticas ou humilhações, a terapia de casal pode ajudar a compreender como o problema afeta os dois e a construir formas mais adequadas de apoio.
Superar o medo exige mais do que insistir
Superar o medo de dirigir não se resume a repetir tentativas nem a obrigar a pessoa a enfrentar o trânsito sem preparo. A prática pode ser importante, mas precisa acontecer de forma gradual, planejada e compatível com as condições de cada pessoa. Antes disso, é necessário compreender o que provoca a ansiedade, quais pensamentos aparecem e quais comportamentos mantêm o problema. Também é importante diferenciar uma dificuldade emocional de uma necessidade real de aprimorar habilidades ao volante.
Uma pessoa pode começar sentando-se no veículo parado, familiarizando-se novamente com os comandos e realizando percursos curtos em locais tranquilos. Depois, conforme desenvolve segurança, pode avançar para situações mais complexas. Entretanto, essa aproximação não deve obedecer a uma fórmula pronta. O planejamento precisa considerar os limites, as reações emocionais e as dificuldades específicas apresentadas em cada etapa.
A psicoterapia pode ajudar a pessoa a compreender as situações que despertam medo, reconhecer pensamentos antecipatórios e desenvolver novas formas de lidar com a ansiedade. Além disso, permite analisar como a esquiva foi construída e quais condições podem favorecer a retomada da autonomia. O objetivo não consiste apenas em fazer alguém voltar a dirigir, mas em ajudá-la a ampliar suas escolhas sem permanecer controlada pelo medo.
Entrevista sobre medo de dirigir no Bahia Motor
A entrevista vai ao ar sábado, às 8h, na programação da TVE Bahia. Espero que nossa conversa contribua para que mais pessoas compreendam que o medo de dirigir não deve ser motivo de vergonha, brincadeira ou julgamento. Trata-se de uma dificuldade que pode limitar a autonomia, afetar a rotina e produzir consequências para toda a família.
Também espero que familiares e companheiros consigam oferecer apoio sem transformar incentivo em cobrança. Compreender o sofrimento não significa reforçar a esquiva, mas ajudar a pessoa a buscar condições mais adequadas para enfrentar aquilo que teme. Tão logo seja possível, compartilharei o vídeo da entrevista para você conferir aqui no blog.






