Na semana passada, tive contato com uma notícia bastante curiosa. Nela, li que a Grã-Bretanha proibiu a veiculação de propagandas da linha de cosméticos da gigante L’Oreal. As peças foram vetadas porque traziam a atriz Julia Roberts em uma versão altamente editada por programas de imagem.

Em outras palavras, não era exatamente a atriz real que estava sendo apresentada, mas uma idealização de beleza e juventude construída digitalmente.

Ao que tudo indica, essa versão ficou tão distante da realidade que o órgão regulador britânico acatou a denúncia e determinou a suspensão da publicidade. A empresa, por sua vez, negou que a propaganda fosse enganosa, embora tenha admitido alterações na imagem.

Sofrimento psíquico e expectativas irreais

A notícia, embora curiosa, levanta uma questão importante. Afinal, quanto sofrimento psíquico pode ser gerado quando alguém utiliza um produto esperando um resultado que, na prática, nunca poderia ser alcançado?

Na minha prática clínica, observo que esse tipo de frustração não se limita à relação da pessoa com o próprio corpo ou com o consumo. Muitas vezes, ela atravessa também os vínculos afetivos. Isso porque a autoestima fragilizada pode gerar inseguranças, necessidade constante de validação e comparações dentro da relação. Como consequência, não é raro que esse processo contribua para problemas no relacionamento, especialmente quando a pessoa passa a acreditar que precisa corresponder a um padrão idealizado para ser amada ou desejada.

Além disso, o uso de figuras públicas como referência reforça esse efeito. Muitas pessoas pensam: “se ela usa esse produto e tem esse resultado, eu também posso alcançar isso”.

No entanto, esse “resultado” não é fruto apenas do produto, mas de uma construção artificial, mediada por tecnologia e edição de imagem.

Atendimento psicológico abordando sofrimento psíquico causado por propaganda enganosa
Quando a expectativa criada não se sustenta na realidade, o sofrimento psíquico aparece.
Elídio Almeida, psicólogo em Salvador, especialista em terapia de casal e relacionamentos

Propaganda enganosa e seus efeitos emocionais

Nesse contexto, a propaganda enganosa pode gerar sofrimento psíquico em pelo menos duas direções.

Por um lado, a sociedade estabelece padrões de beleza muitas vezes inacessíveis, o que pode levar a sentimentos de inadequação, baixa autoestima e comportamentos compensatórios.

Por outro lado, mesmo quando a pessoa consegue acessar determinados produtos ou procedimentos, ela pode se frustrar ao não atingir o resultado prometido. Como consequência, pode acabar se culpando, em vez de questionar a própria lógica da propaganda.

Relação com o corpo e impactos nos relacionamentos

Nesse sentido, é importante ampliar o olhar. Na minha prática clínica, percebo que essa relação distorcida com a imagem não afeta apenas a autoestima individual, mas também os vínculos afetivos.

Isso acontece porque, muitas vezes, o valor pessoal passa a ser condicionado à aparência — à necessidade de ser admirado, desejado ou validado pelo outro.

Como consequência, podem surgir inseguranças, comparações constantes e até comportamentos que alimentam problemas no relacionamento, especialmente quando a pessoa sente que precisa corresponder a um padrão idealizado.

Reflexões necessárias

Diante disso, vale a pena refletir:

  • Qual o impacto dessas imagens em nossa vida?
  • Será que realmente queremos nos tornar versões irreais de nós mesmos?
  • Até que ponto estamos consumindo padrões que não nos pertencem?
  • E, principalmente, quem se responsabiliza pelo sofrimento psíquico gerado por essas promessas?

Ao meu ver, essas são questões fundamentais. Afinal, talvez o problema não esteja em quem não alcança o padrão, mas no próprio padrão que nos é apresentado.

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