Quem acompanha meu blog sabe que já fiz críticas severas a alguns comerciais e propagandas de TV. Em muitos casos, isso aconteceu porque determinadas campanhas levaram ao público informações preconceituosas, desnecessárias ou que, na minha percepção, contribuíam para comportamentos sociais problemáticos. Por outro lado, algumas campanhas também podem estimular reflexões importantes, inclusive sobre a maneira como redes sociais e relacionamentos passaram a fazer parte da nossa vida.

Hoje, por acaso, deparei-me com uma propaganda que achei fantástica e imediatamente tive vontade de comentá-la aqui no site. De início, relutei, pois, de alguma forma, estaria promovendo uma marca ou um produto. Entretanto, ponderei que seria justo. Afinal, se critico propagandas e ideias ruins no intuito de estimular alguma reflexão, também considero válido reconhecer aquilo que pode contribuir para melhorarmos nossos comportamentos.

O comercial que tanto gostei foi produzido pela Arcos Comunicação para a Vitarella, fabricante do biscoito Treloso. Juntas, apresentaram a campanha “Rede Social de Verdade”. A proposta despertou uma reflexão interessante sobre redes sociais e relacionamentos, especialmente sobre o espaço que as interações virtuais passaram a ocupar em nossa vida.

Rede social de verdade: o que estamos deixando do lado de fora da tela?

Depois que assisti ao comercial na TV, vi o vídeo várias vezes na internet. Confesso que o pensamento foi longe, num misto de nostalgia e reflexão acerca do modelo de vida de tantas pessoas que passaram a concentrar uma parcela cada vez maior de suas interações nas redes sociais.

Não há dúvida de que a tecnologia ampliou enormemente nossas possibilidades de comunicação. Podemos conversar com pessoas distantes, reencontrar amigos, trocar informações e manter vínculos que, em outras circunstâncias, talvez se perdessem com o tempo. Entretanto, também precisamos observar o que acontece quando a facilidade da interação virtual começa a substituir experiências importantes da convivência presencial.

Olhar nos olhos, iniciar uma conversa, fazer uma amizade, aproximar-se de alguém por quem sentimos interesse, lidar com o silêncio, perceber expressões e aprender a conviver com diferenças são habilidades que desenvolvemos justamente na interação com outras pessoas. Por isso, quando grande parte das relações passa a acontecer por intermédio de uma tela, vale perguntar quais experiências estamos ganhando e quais podemos estar deixando de viver.

Talvez, se aprofundássemos a discussão sobre o impacto das redes sociais e dos hábitos virtuais, encontraríamos vantagens e desvantagens. De um lado, temos velocidade na comunicação, acesso à informação, comodidade e inúmeras possibilidades de interação. Por outro, existe o risco de nos acomodarmos diante das telas e reduzirmos experiências que também são importantes para o desenvolvimento das nossas relações interpessoais.

Casal usando celular em reflexão sobre redes sociais e relacionamentos
As redes sociais ampliam nossas possibilidades de contato, mas não precisam substituir as experiências de convivência fora das telas.
Elídio Almeida, psicólogo em Salvador, especialista em terapia de casal e relacionamentos.

Redes sociais e relacionamentos: conexão não significa proximidade

Essa reflexão também pode ser levada para os relacionamentos amorosos. Duas pessoas podem estar fisicamente próximas e, ainda assim, passar grande parte do tempo conectadas a outras pessoas, conteúdos e acontecimentos por meio da internet. Nesse contexto, estar disponível online não significa necessariamente estar disponível para quem está ao nosso lado.

Isso não significa transformar o celular ou as redes sociais nos grandes vilões dos relacionamentos. Afinal, a própria tecnologia também aproxima casais, facilita a comunicação e permite compartilhar experiências. O problema surge quando ela começa a ocupar um espaço que compromete a conversa, a intimidade, a atenção ou a convivência.

Além disso, as redes criam novas formas de comparação e exposição. A cada postagem, comentário, foto ou check-in, podemos construir uma determinada imagem sobre nossa vida. Muitas vezes, mostramos felicidade, sucesso, popularidade e segurança enquanto escondemos conflitos, inseguranças e dificuldades que fazem parte da experiência humana.

Certa vez, soube de um rapaz que fez um empréstimo com juros altíssimos para produzir fotos profissionais apenas com o objetivo de publicá-las em sua rede social e conquistar mais curtidas entre os amigos. O exemplo pode parecer extremo, mas ajuda a levantar uma pergunta importante: até onde estamos dispostos a ir para construir uma imagem que agrade às outras pessoas?

Por isso, talvez seja importante observar não apenas quanto tempo passamos conectados, mas também o papel que as redes sociais desempenham em nossa vida e nos nossos relacionamentos. Elas ampliam nossas possibilidades de contato ou começam a substituir experiências que gostaríamos de viver fora da tela?

Como equilibrar a vida online e as relações fora das redes sociais?

Viver sem os recursos tecnológicos que temos à disposição seria cada vez mais difícil. Além disso, não precisamos tratar a vida online e a vida offline como realidades necessariamente adversárias. O desafio talvez esteja justamente em aprender a conviver com ambas sem permitir que uma elimine experiências importantes da outra.

Diversão, simplicidade e espontaneidade são elementos fundamentais para nossas relações. Encontrar amigos, conversar sem necessariamente registrar aquele momento, conhecer pessoas, brincar, namorar e simplesmente estar presente são experiências que nenhuma ferramenta precisa substituir. Da mesma forma, a internet pode complementar essas relações e criar possibilidades que não existiriam sem ela.

Portanto, talvez cada pessoa precise analisar a própria rede social para além do número de amigos, seguidores ou interações que aparecem numa tela. Quem são as pessoas com quem você pode conversar? Quem conhece suas dificuldades e não apenas aquilo que você publica? Com quem você consegue dividir momentos sem precisar transformá-los imediatamente em uma postagem?

A campanha “Rede Social de Verdade” me chamou atenção justamente por fazer esse convite de maneira simples e divertida. Ao estimular crianças a valorizarem as interações fora das telas, também provoca os adultos a refletirem sobre a qualidade das próprias relações.

No fim das contas, não precisamos abandonar as redes sociais para recuperar aquilo que existe fora delas. Talvez precisemos apenas lembrar que uma rede verdadeiramente importante não se constrói somente com conexões, curtidas ou comentários, mas também com presença, convivência, afeto e pessoas que efetivamente fazem parte da nossa vida.

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