Existem muitas regras no casamento que são construídas pelo próprio casal e ajudam a organizar a convivência. Outras, porém, chegam prontas, vindas da família, da cultura, da sociedade ou da religião. O problema começa quando essas regras deixam de funcionar como referências e passam a determinar que alguém deve permanecer numa relação independentemente do que sente, deseja ou vive naquele casamento. Nesse caso, continuar junto pode deixar de ser uma escolha para se transformar em obrigação.
Essa reflexão surgiu a partir de um vídeo do pastor Cláudio Duarte que, anos atrás, ganhou grande repercussão nas redes sociais. Durante uma pregação, ao aconselhar um homem sobre casamento, o religioso recorria, em tom de humor, à passagem de Romanos 7:2 e à ideia de que o compromisso conjugal deveria permanecer “até que a morte os separe”. Os risos e aplausos da plateia reforçavam aquela orientação. Entretanto, para além da religião e do humor presentes na situação, existe uma questão importante para os relacionamentos: o que acontece quando alguém acredita que não pode sair de um casamento, mesmo estando profundamente infeliz nele?
Quando as regras no casamento deixam de ajudar a relação
Todos nós vivemos numa sociedade organizada por regras. Elas orientam comportamentos, estabelecem limites e, muitas vezes, ajudam a tornar a convivência possível. Quando uma placa informa que a velocidade máxima de determinada via é de 80 km/h, por exemplo, sabemos previamente qual comportamento é esperado e quais consequências poderão ocorrer caso aquela orientação não seja respeitada.
Nos relacionamentos também existem regras, ainda que muitas delas sejam chamadas de acordos ou combinados. O casal pode estabelecer como organizará as finanças, como dividirá responsabilidades, quais comportamentos considera aceitáveis ou como pretende lidar com fidelidade, filhos e projetos de vida. Portanto, a existência de regras não é, por si só, prejudicial ao casamento. Ao contrário, alguns acordos são fundamentais para que duas pessoas consigam construir uma vida em comum.
A dificuldade aparece quando não existe possibilidade de escolha, negociação ou revisão. Nesse caso, a regra deixa de organizar a relação e passa a controlar a pessoa por meio do medo, da culpa ou da ameaça de alguma consequência. É justamente aí que precisamos diferenciar um compromisso assumido livremente de uma permanência sustentada apenas pela coerção.
A religião, inclusive, pode ocupar um lugar extremamente importante na história de uma pessoa e também na construção de um casamento. Para muitos casais, a fé compartilhada oferece apoio, pertencimento, valores e recursos para atravessar momentos difíceis. Por isso, a questão não é acreditar ou deixar de acreditar. O problema surge quando qualquer sistema de valores — religioso, familiar, cultural ou social — impede a pessoa de refletir sobre aquilo que está vivendo e transforma sofrimento em obrigação.
Permanecer casado nem sempre significa escolher a relação
Quando um casal começa a cogitar uma separação, geralmente existe uma história anterior de dificuldades. Muitas vezes, houve tentativas de diálogo, promessas de mudança, períodos de afastamento, reconciliações e até busca por ajuda profissional ou religiosa. Ainda assim, algumas relações chegam a um ponto em que uma das pessoas, ou ambas, começa a questionar se deseja continuar.
Isso não significa que toda crise deva terminar em separação. Muito pelo contrário. Há casais que atravessam períodos extremamente difíceis e conseguem reconstruir aspectos importantes da convivência. Entretanto, existe uma diferença entre decidir permanecer porque ainda se acredita naquela relação e continuar simplesmente porque alguém aprendeu que não possui o direito de fazer outra escolha.
Imagine, por exemplo, algo tão cotidiano quanto beijar seu marido, sua esposa, seu namorado ou sua namorada. Provavelmente esse beijo terá determinado significado porque existe vontade de realizá-lo. Agora imagine o mesmo gesto feito porque alguém ordenou que você beijasse aquela pessoa, mesmo sem desejar. Exteriormente, talvez o comportamento pareça idêntico; emocionalmente, porém, estamos falando de experiências completamente diferentes.
Se isso acontece com um beijo, podemos imaginar o peso dessa diferença quando falamos de fazer sexo, dividir a intimidade, dormir e acordar todos os dias ao lado de alguém ou construir anos de vida em comum. Por isso, continuar numa relação não é necessariamente a mesma coisa que escolher continuar naquela relação.
Além disso, simplesmente ordenar que duas pessoas permaneçam juntas não resolve aquilo que as fez pensar em separação. Uma regra pode até impedir o rompimento, mas não produz, por si só, intimidade, desejo, respeito, confiança ou capacidade de diálogo. Quando o casal não compreende esses problemas, eles tendem a reaparecer em outros contextos. Consequentemente, a relação pode continuar enquanto o sofrimento se acumula.

Elídio Almeida, psicólogo em Salvador, especialista em terapia de casal e relacionamentos.
Como a terapia de casal pode ajudar diante dessa dúvida?
Na minha experiência como terapeuta de casal, muitas pessoas procuram ajuda justamente quando já não sabem se devem permanecer juntas ou se a separação seria o caminho mais adequado. Frequentemente, chegam ao consultório depois de terem tentado resolver os conflitos sozinhas, conversado com familiares, feito novos acordos ou buscado outras formas de orientação.
A terapia de casal, entretanto, não deveria funcionar como mais uma regra dizendo que aquelas pessoas precisam permanecer juntas. Tampouco cabe ao terapeuta determinar que elas devem se separar. O processo pode ajudá-las a compreender a história da relação, os conflitos que se repetem, as tentativas anteriores de solução, a percepção de cada pessoa sobre os acontecimentos e, sobretudo, aquilo que ainda pode ou não ser construído entre os dois.
Em alguns casos, esse percurso favorece uma reconstrução importante do relacionamento. Em outros, o casal compreende que a separação é a decisão mais coerente com a realidade que está vivendo. De qualquer maneira, existe uma diferença significativa entre chegar a uma decisão depois de compreender melhor a própria história e simplesmente obedecer a uma determinação externa.
Por isso, mais importante do que estabelecer previamente que um casamento precisa continuar é ajudar o casal a compreender por que chegou àquela crise. Afinal, quando conseguimos identificar melhor a origem dos conflitos, torna-se possível tomar decisões mais consistentes com os problemas reais da relação, e não apenas reagir aos sintomas mais visíveis das brigas, dos desentendimentos ou das pressões externas.
Regras: um casamento saudável precisa ser construído e escolhido
Talvez uma das ideias que mais precisemos rever seja a de que o sucesso de um casamento pode ser medido exclusivamente pelo tempo que ele durou. Evidentemente, construir uma história longa ao lado de alguém pode ser algo muito valioso. Contudo, a duração, sozinha, não nos informa sobre a qualidade daquela convivência.
Há relações duradouras marcadas por carinho, respeito, desejo, companheirismo e capacidade de enfrentar dificuldades. Porém, também existem casamentos igualmente longos atravessados por medo, ressentimento, silêncio e profunda solidão. Portanto, permanecer junto não pode ser o único critério para avaliar se uma relação deu certo.
Regras e acordos podem ajudar um casal a organizar a vida em comum. O compromisso também é fundamental. Entretanto, nenhum deles substitui diálogo, respeito, intimidade, responsabilidade afetiva e liberdade de escolha. Afinal, talvez um casamento saudável não seja simplesmente aquele em que duas pessoas conseguem permanecer juntas, mas aquele em que, apesar das dificuldades e das transformações da vida, elas ainda encontram razões para continuar escolhendo uma à outra.






