A sexualidade ainda é um tema cercado por silêncios, conflitos e, muitas vezes, sofrimento. Há algum tempo, um rapaz me procurou após conhecer meu blog e decidiu agendar uma consulta. Na primeira sessão, disse que queria se conhecer melhor e superar algumas questões relacionadas à timidez e à sua vida profissional.

Quando falar sobre sexualidade ainda é difícil:

Cauteloso e muito atento, ele passou boa parte do tempo me observando. Gosto quando isso acontece nas primeiras sessões, pois entendo que o paciente precisa se sentir seguro e confiar no terapeuta para falar sobre aquilo que o atravessa.

Ainda tímido, no entanto, em determinado momento, comentou que sentia atração por pessoas do mesmo sexo e que não estava lidando bem com isso. Disse que buscava ajuda, pois já havia recorrido a explicações religiosas, científicas e culturais, mas nenhuma delas havia lhe trazido paz.

O momento em que o silêncio se rompe:

De fato, lembro-me como se fosse hoje: seus olhos marejados, o corpo encolhido na poltrona e o desconforto de quem fala sobre sua sexualidade pela primeira vez. Ele contou que havia planejado cuidadosamente o que diria naquela sessão e, em nenhum desses planos, havia considerado a possibilidade de falar sobre sua orientação sexual.

Ainda assim, de algum modo, sentiu-se seguro para expressar sua angústia e seu sofrimento.

O vínculo terapêutico e o processo de transformação:

A partir dali, começava a se construir um vínculo terapêutico que, ao longo do tempo, se tornaria um dos processos mais significativos que acompanhei em minha trajetória profissional.

Com o passar do tempo, após cerca de um ano e meio de terapia, com encontros semanais, os avanços foram consistentes. Ele passou a se conhecer melhor, desenvolveu novas habilidades e construiu caminhos mais alinhados ao seu bem-estar.

Escultura representando jovem saindo do armário com bandeira LGBTQIA+, simbolizando autoaceitação e sexualidade, tema abordado por Elídio Almeida, psicólogo em Salvador
Armários são para roupas; viver a própria sexualidade com autenticidade pode transformar a relação consigo mesmo e com o mundo.
Elídio Almeida, psicólogo em Salvador, especialista em terapia de casal e relacionamentos

“Armários são para roupas”: o significado por trás do presente

Em uma dessas sessões, chegou ao consultório com um embrulho cuidadosamente preparado. De dentro dele, retirou a obra artesanal que ilustra este post. Disse que era uma forma de agradecer por tudo o que havia conseguido desenvolver ao longo do processo terapêutico.

No objeto, repleto de significados, havia a representação de um garoto que rompe cadeados e correntes, sai do armário e assume, com orgulho, sua orientação sexual. Também estava presente a frase que dá título a este texto: “armários são para roupas…”, além de um laptop aberto em minha página no Facebook. Ele havia pensado em cada detalhe.

De fato, fiquei profundamente tocado. Hoje, esse presente ocupa um lugar especial em minha estante, ao lado de outros que também carrego como símbolos de histórias de transformação.

Os armários invisíveis que ainda aprisionam vidas:

Além disso, compartilhar esse caso não tem apenas a intenção de registrar um momento importante da minha prática profissional, mas também de provocar uma reflexão.

Ainda hoje, muitas pessoas vivem presas em armários simbólicos — familiares, religiosos, culturais, profissionais — que limitam suas possibilidades de existir de forma mais autêntica.

Por outro lado, esses armários sustentam, muitas vezes, vidas marcadas por medo, silêncio e sofrimento.

Sexualidade, liberdade e construção de si:

Romper com essas estruturas exige coragem. Exige, sobretudo, compreensão — de si mesmo, da própria história e dos contextos que atravessam cada experiência.

E isso não se restringe à sexualidade. Vale também para traumas, medos, fobias e outros padrões que, quando não elaborados, mantêm a pessoa aprisionada em modos de vida que já não fazem sentido.

Nesse sentido, ao longo dos atendimentos, torna-se possível perceber que, quando alguém se permite olhar para si com mais profundidade, algo começa a mudar. A confiança se constrói, novas possibilidades surgem e a vida passa a ser vivida com mais coerência e menos sofrimento.

A psicoterapia, então, não oferece respostas prontas. Ela constrói caminhos.

E, muitas vezes, o primeiro passo não está em mudar quem se é — mas em deixar de esconder isso.

A ele, e a todas as pessoas que, de alguma forma, confiaram em meu trabalho, deixo aqui meu sincero agradecimento.

Ao rapaz, em especial, desejo que siga vivendo sua história com liberdade, autenticidade e orgulho de quem se tornou.

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