Recentemente disponibilizei um e-book com as 24 ilusões que podem destruir um relacionamento. Ao elaborar esse material, procurei mostrar como a influência dos outros na relação pode transformar crenças culturais e experiências particulares em regras aparentemente válidas para todos os casais.
Essas ideias fazem parte do imaginário popular, mas nem sempre correspondem à realidade cotidiana das relações. Quando alguém tenta segui-las de maneira rígida, pode criar expectativas incompatíveis com as próprias necessidades. Como consequência, surgem frustrações, cobranças e conflitos na vida amorosa.
Conhecer essas ilusões e refletir sobre cada uma delas pode ajudar você a compreender algumas dificuldades vividas em sua relação. Além disso, essa análise permite questionar padrões antes que eles contribuam para crises e desgastes.
Quebrar padrões, desconstruir ilusões e experimentar novos comportamentos nem sempre é uma tarefa fácil. Afinal, crescemos em uma sociedade que estabelece modelos sobre como as pessoas devem amar, conviver e organizar a vida a dois.
Por isso, algumas ideias apresentadas no e-book podem parecer polêmicas à primeira vista. Entretanto, Os relacionamentos são diferentes e variam conforme a história, as necessidades e os acordos de cada casal. Assim, uma regra que funciona para determinada relação pode não fazer sentido em outra.

Elídio Almeida, psicólogo em Salvador, especialista em terapia de casal e relacionamentos.
De onde vem a influência dos outros na relação?
Nós aprendemos de diferentes maneiras. Algumas aprendizagens surgem das nossas próprias experiências, enquanto outras acontecem por meio de instruções e da observação do comportamento de outras pessoas.
Desde cedo, recebemos mensagens sobre o que significa amar, casar, construir uma família e enfrentar conflitos. Muitas dessas orientações vêm dos pais, dos amigos, da religião, da escola, dos meios de comunicação e da cultura. Portanto, não construímos nossas ideias sobre os relacionamentos de forma isolada.
Aprender com a experiência dos outros não representa um problema. Na verdade, esse aprendizado pode evitar erros, ampliar perspectivas e apresentar possibilidades que ainda não conhecíamos. A dificuldade aparece quando transformamos uma experiência particular em uma regra universal.
Isso acontece, por exemplo, quando alguém afirma que “ter um filho resolve os problemas do casamento”. Essa ideia pode partir de uma experiência pessoal ou de uma crença repetida culturalmente. No entanto, ela ignora que a chegada de um filho também traz novas responsabilidades, mudanças na rotina e desafios para o casal.
Mesmo que alguém relate uma experiência positiva, isso não significa que o mesmo resultado acontecerá em todas as relações. Cada casal possui uma história, um contexto e necessidades específicas. Por isso, decisões importantes não devem se apoiar exclusivamente na experiência alheia.
Quando uma experiência vira regra para todos?
Muitas crenças sobre os relacionamentos são transmitidas sem que as pessoas examinem sua origem ou utilidade. Quando a influência dos outros na relação passa a orientar as decisões do casal, frases repetidas por familiares e amigos podem assumir a aparência de verdades incontestáveis.
Algumas pessoas acreditam, por exemplo, que casais felizes nunca discutem. Outras defendem que os parceiros devem compartilhar todas as senhas como prova de amor. Também existem aquelas que consideram o ciúme uma demonstração necessária de afeto ou imaginam que todo casamento deve seguir o modelo vivido pelos pais.
No entanto, o fato de uma ideia ser comum não significa que ela seja saudável. Quando essas regras ocupam o primeiro plano, o casal pode deixar de observar aquilo que realmente acontece na própria convivência.
Além disso, a comparação com outras relações costuma considerar apenas aquilo que aparece externamente. As pessoas observam fotografias, relatos e demonstrações públicas, mas não conhecem todas as dificuldades, negociações e conflitos presentes naquela história.
Dessa forma, uma relação pode começar a ser orientada por expectativas construídas a partir da vida dos outros. Aos poucos, os parceiros deixam de perguntar o que funciona para eles e passam a tentar reproduzir modelos que não correspondem às suas necessidades.
Não precisamos rejeitar todos os conselhos nem ignorar experiências diferentes das nossas. Contudo, devemos avaliar o contexto em que cada orientação surgiu e verificar se ela realmente se aplica à relação que estamos construindo.
Como construir acordos próprios no relacionamento?
Para reduzir a influência dos outros, o casal precisa olhar com mais atenção para a própria convivência. Isso envolve reconhecer diferenças, conversar sobre expectativas e construir acordos compatíveis com as necessidades de ambos.
Algumas perguntas podem ajudar nesse processo:
- Estamos tomando esta decisão porque ela faz sentido para nós?
- Essa regra corresponde às nossas necessidades ou apenas ao que aprendemos?
- Estamos comparando nossa relação com uma versão idealizada da vida de outras pessoas?
- Conseguimos conversar sobre nossas diferenças sem tentar reproduzir o modelo de outro casal?
As respostas não precisam seguir um padrão único. Pelo contrário, elas devem considerar as características das pessoas envolvidas e os efeitos que determinados comportamentos produzem na convivência.
Quando os parceiros não conseguem construir esses acordos sozinhos, a terapia de casal pode oferecer um espaço para compreender as influências presentes na relação. Além disso, o acompanhamento ajuda a identificar expectativas rígidas e desenvolver formas mais adequadas de diálogo.
Podemos aprender com outras pessoas, mas não devemos entregar a elas a responsabilidade de definir nossa vida amorosa. Conselhos e experiências podem servir como referências. No entanto, as decisões precisam considerar quem você é, quem está ao seu lado e qual relação vocês desejam construir.
A influência dos outros na relação se torna prejudicial quando substitui o diálogo e impede o casal de reconhecer a própria realidade. Por isso, desconstruir ilusões não significa abandonar tudo o que aprendemos. Significa avaliar essas ideias com cuidado e construir uma relação mais consciente, coerente e adequada às pessoas que fazem parte dela.






