A ansiedade faz parte da vida humana. Ela sempre esteve presente na nossa história e, durante muito tempo, teve uma função importante para a sobrevivência da espécie. Entretanto, o problema começa quando a ansiedade deixa de apenas preparar a pessoa para enfrentar dificuldades reais e passa a fazê-la sofrer antecipadamente por situações que talvez nunca aconteçam.

Na prática clínica, percebo que muitas pessoas já acordam emocionalmente cansadas antes mesmo do dia começar. A mente acelera, o corpo permanece em estado de alerta e a sensação constante é de que algo ruim está prestes a acontecer. Enquanto isso, o presente vai sendo consumido por preocupações futuras, cobranças internas e medo do que ainda nem ocorreu.

Além disso, a ansiedade moderna já não está relacionada apenas a perigos concretos. Hoje, ela aparece nos relacionamentos, nas cobranças profissionais, na insegurança financeira, na necessidade de dar conta de tudo e até na dificuldade de simplesmente descansar sem culpa.

Por isso, cada vez mais pessoas vivem como se estivessem permanentemente tentando evitar sofrimentos futuros. Entretanto, nessa tentativa de controle, acabam adoecendo emocionalmente no presente.

Mulher pensativa representando ansiedade crônica, excesso de pensamentos e sofrimento antecipado
A ansiedade frequentemente faz a pessoa sofrer emocionalmente por situações que talvez nunca aconteçam.
Elídio Almeida, psicólogo em Salvador, especialista em terapia de casal e relacionamentos.

Ansiedade e sobrevivência: por que ela existe?

Muito já se sabe que a ansiedade esteve ligada à sobrevivência humana ao longo da evolução da espécie. Diante de ameaças reais, nossos antepassados precisavam decidir rapidamente entre lutar, fugir ou se proteger.

Naquele contexto, a ansiedade ajudava o organismo a se preparar para situações perigosas. O aumento da adrenalina, da atenção e da vigilância tinha uma função adaptativa importante.

Entretanto, a vida mudou. Os perigos deixaram de ser apenas animais ferozes, guerras tribais ou ameaças concretas. Hoje, muitas vezes, o perigo mora dentro da própria mente.

Consequentemente, a pessoa passa a viver em estado contínuo de antecipação emocional.

Ansiedade crônica: quando o sofrimento começa antes do problema

A ansiedade crônica costuma transformar possibilidades futuras em sofrimento presente. Ou seja, a pessoa não sofre apenas pelo que aconteceu, mas principalmente pelo que imagina que pode acontecer.

Na experiência clínica, observo frequentemente pessoas que:

  • antecipam rejeições;
  • vivem esperando notícias ruins;
  • imaginam fracassos antes de tentar;
  • sofrem por conversas que ainda nem aconteceram;
  • ou permanecem emocionalmente exaustas tentando controlar o imprevisível.

Além disso, quanto mais alguém tenta eliminar totalmente o desconforto emocional da vida, mais ansiosa tende a ficar.

Isso acontece porque a ansiedade frequentemente se alimenta da tentativa exagerada de controle.

Por exemplo: uma pessoa pode evitar iniciar um relacionamento por medo de sofrer no futuro. Outra pode deixar de assumir desafios profissionais para não lidar com possíveis frustrações. E, embora essas escolhas aparentemente reduzam a ansiedade momentaneamente, acabam fortalecendo o medo ao longo do tempo.

Enquanto isso, a vida vai sendo adiada.

O corpo também sofre com as crises ansiogênicas

Ansiedade não acontece apenas nos pensamentos. O corpo inteiro participa desse processo.

Por isso, muitas pessoas desenvolvem:

  • palpitações;
  • tensão muscular;
  • dores de cabeça;
  • sudorese;
  • insônia;
  • aperto no peito;
  • gastrite;
  • desconfortos intestinais;
  • falta de ar;
  • e sensação constante de esgotamento.

Além disso, algumas pessoas passam tanto tempo em estado de alerta que desaprendem a relaxar. Mesmo nos momentos de descanso, continuam aceleradas emocionalmente.

Na prática terapêutica, é comum perceber pessoas que:

  • deitam para dormir pensando no dia seguinte;
  • vivem com sensação de urgência constante;
  • não conseguem desacelerar mentalmente;
  • ou sentem culpa quando tentam descansar.

Consequentemente, a ansiedade deixa de ser um estado passageiro e passa a ocupar praticamente todos os espaços da vida.

Pessoas ansiosas nos relacionamentos

Os relacionamentos também costumam sofrer impactos importantes da ansiedade.

Muitas vezes, a pessoa ansiosa:

  • interpreta silêncio como rejeição;
  • antecipa abandono;
  • sofre excessivamente diante de pequenas mudanças;
  • precisa de confirmações constantes;
  • ou vive tentando controlar situações e pessoas para reduzir inseguranças internas.

Entretanto, quanto maior a tentativa de controle, maior tende a ser o desgaste emocional das relações.

Além disso, relacionamentos marcados por insegurança, críticas constantes, instabilidade emocional ou dificuldade de comunicação podem intensificar ainda mais os sintomas ansiosos.

Na minha prática clínica, observo que muitos conflitos conjugais não surgem apenas pelos fatos em si, mas pela forma ansiosa como cada pessoa interpreta, antecipa e reage emocionalmente às situações.

A ansiedade moderna nunca descansa

Talvez esse seja um dos maiores problemas da atualidade: a ansiedade contemporânea não dá trégua.

Antes, os estados de alerta surgiam apenas em situações específicas. Hoje, muitas pessoas vivem permanentemente preocupadas:

  • com o futuro;
  • com desempenho;
  • com produtividade;
  • com dinheiro;
  • com aprovação;
  • com fracassos;
  • e até com a possibilidade de não serem felizes o suficiente.

Por isso, o domingo frequentemente deixa de ser descanso e passa a representar a antecipação da segunda-feira. Em alguns casos, a pessoa começa a sofrer pela semana já na sexta ou no sábado.

Enquanto isso, o organismo permanece continuamente tensionado.

Tratamento da ansiedade: aprender a viver sem antecipar tanto a dor

Controlar absolutamente o futuro é impossível. Entretanto, é possível desenvolver maneiras mais saudáveis de lidar com a ansiedade.

O acompanhamento psicológico ajuda justamente nesse processo:

  • compreender padrões emocionais;
  • identificar gatilhos;
  • reduzir antecipações excessivas;
  • desenvolver comportamento assertivo;
  • melhorar relações;
  • e construir formas mais equilibradas de enfrentar as dificuldades da vida.

Além disso, a psicoterapia permite que a pessoa compreenda algo fundamental: evitar constantemente o sofrimento também pode se tornar uma forma de sofrimento.

Ao longo dos atendimentos, percebo que muitas pessoas passaram tanto tempo tentando impedir dores futuras que acabaram deixando de viver experiências importantes no presente.

E, muitas vezes, a ansiedade não está apenas relacionada ao medo do que pode acontecer. Ela também surge da dificuldade de confiar que será possível lidar emocionalmente com a vida quando ela acontecer.

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